A vingança de Gudin

Eugenio Gudin (1886-1986) perdeu o confronto estratégico- intelectual e alguma reserva de influência política para Roberto Simonsen (1880-1948). A refrega institucional e acadêmica durou, civilizadamente, a maior parte das décadas de 40 e 50 do século passado. A opção nacional pela via da industrialização, dando ganho de causa a Simonsen, orientou a árvore decisória do país pelos 60 anos seguintes. Não obstante as disputas distributivistas próprias do arranjo, forjou-se sólida coalizão estrutural entre os industriais e operários urbanos, com subordinação e mesmo exclusão do mundo rural. Entre arroubos, sussurros e pancadarias, foi este acordo que garantiu a construção de um país de respeitável porte material, com seu extraordinário apêndice de desigualdades.

Monetarista rigoroso, Gudin foi crucial na institucionalização do ensino da economia no Brasil, ao lado de seu discreto e sólido contemporâneo, Otavio Gouveia de Bulhões (1906-1990). Milton Friedman poderia ter sido um de seus aplicados alunos, embora sem o brilho da formação humanística de que se orgulhavam seus mais famosos discípulos reais: Roberto Campos (1917-2001) e Mario Henrique Simonsen (1935-1997). A experiência no exercício do poder de governo promoveu o ajustamento entre as origens de inclinação monetarista de ambos e a seta de tempo cuja trajetória inspirava-se no Simonsen anterior, isto é, em direção à industrialização, estratégia insubstituível da segurança nacional. O espírito de Roberto Simonsen prevaleceu sobre o manto inflexível de Eugenio Gudin.

Aquela estrutura fundamental dissipou-se ao se realizar. É impossível continuar a fazer mais do mesmo, até porque o mesmo já não existe, tornou-se obsoleto: na produção industrial, na vida rural, no mundo dos negócios, nas universidades e nas profissões. É neste momento de incerteza que Eugenio Gudin renasce na contabilidade doméstica do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Aparentemente sem a abertura de vistas que amenizaria a aridez dos livros-texto, Levy se apresenta como intérprete catequista, papel que o elitismo intelectual de Campos e Simonsen os impediu de aceitarem, dada a mediocridade da obra. Gudin, vingado, é o Eugenio menor que o momento conseguiu gerar, sem que se deva atribuir ao adjetivo a virulência difusa nas relações sociais, e que nunca esteve presente no trato cavalheiresco e culto do Eugenio original. Dará frutos?

Compartilhe e Curta
RSS
Siga via E-mail
Facebook0
Google+
https://insightnet.com.br/segundaopiniao/?p=89
Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *