O DESTINO DE LULA

Preocupados com o destino pré-eleitoral de Lula, inflamadas porta-vozes do grande líder descuram-se do que com ele pode ocorrer depois das eleições. Com a tese kamikaze de ou Lula ou nada e a religiosa excomunhão dos que sugerem a possibilidade de o PT abrir mão da cabeça de chapa, hostilizam o eleitorado brizolista e os socialistas contrários a Joaquim Barbosa, ademais de enorme eleitorado de esquerda não automaticamente petista. Quem não se preocupa com isso é partido carona, partido que não tem voto. A sensata opinião de que, na impossibilidade da candidatura Lula, o PT conversaria com aliados históricos sem a preliminar de que a cabeça da chapa lhe pertença, vê-se acusada de traição e, para os mais exaltados, adesão à direita. A ideia de que lutar por justiça para Lula obriga a exigir que seja candidato e, consequentemente, presidente da República, só faz sentido na cabeça de conversos à política de caudilhos. Pode ter sucesso, mas, falhando, cresce a possibilidade da derrota de todos, não apenas dos fiéis petistas, com o abandono do poder legal à direita. O insucesso presidencial não impedirá a eleição de deputados progressistas Brasil a fora, deixando a conta, contudo, para o fantasma de Carlos Drummond: e agora Lula?

À falta de metralhadoras e de quem as queira operar, e a visível fragilidade das hostes em direto combate contra os operadores do judiciário, é surpreendente, não só a negligência, mas a estúpida desmoralização dos mecanismos eleitorais. Vencer as eleições presidenciais em outubro é o único, único, único, caminho legal para alterar, em segurança, as atuais posições políticas e jurídicas separando o complexo das esquerdas do aglomerado das direitas. Sem essa vitória, a idade das trevas se prolongará até o fim do mandato dos deputados progressistas eleitos na onda do “ou Lula ou nada”. Será o nada de Lula.

Prolongada omissão de Lula, em silencioso incentivo aos incendiários, arrisca suas próprias barbas, assistindo a intensificação das ofensas de petistas ao eleitorado progressista, mas não devoto. Por enquanto, Lula ainda pode escolher o caminho que não deseja seguir. Depois das eleições de outubro, o destino de Lula, em um ou em outro sentido, não dependerá mais de sua estrita vontade.

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3 comentários sobre “O DESTINO DE LULA

  1. Concordo com os principais argumentos que o senhor vem manejando nos últimos textos e intervenções públicas:
    1º (mil vezes!) o único caminho legal para vencer o golpismo são as eleições de outubro,
    2º que somente com o auxílio involuntário do Partido dos Trabalhadores a direita poderá chegar à presidência da República ,
    3º que a prisão e a enelegibilidade de Lula apesar de ser totalmente injusta, arbitrária e discricionária, não deve servir de escusa para mal-dizer ou deslegitimar as eleições de outubro
    4º que seria um erro justamente abandonar a arena que nossos adversários mais temem que é a competição por votos (que pelo que se indica “eles” não conseguem conquistar).
    5º que uma esquerda isolada e sectária não elege presidente da República como parece já entenderam e comprovaram as esquerdas dentro do e fora do PT ao longo das últimas décadas

    O que não comprendo e não vejo como encaixar com os argumentos arrolados é porque o PT deveria oferecer (e de antemão e sem nenhuma contrapartida) a cabeça de chapa a outros partidos na esquerda afim de produzir uma possível coalização ou frente ampla. Mesmo que admitamos que os duros golpes que atigiram as principais lideranças históricas do petismo debilitaram a capacidade do partido, parece ainda inconteste a liderança do PT sobre o campo político e idelógico das esquerdas tanto em termos quantitativos como qualitativos. Parece também inegável e indiscutível a liderança de Lula sobre o Partido e seu papel de lideranças nas esquerdas de forma mais geral. Como o senhor também entendo que justamente por isso cabe a Lula o primeiro passo para desbloquear essa situação difícil, mantendo ou não sua candidatura e, nesse último caso, escolhendo um candidato alternativo (um vice presidente) que, uma vez definido a impossibilidade legal de apresentar sua candidatura, deve passar a liderar a coalizão ou grande frente. Também não vejo como e porque a candidatura de Ciro Gomes e do PDT pode ajudar ser o possível substituto de Lula, principalmente pela estratégia adotada pelo próprio candidato, bastante dúbia em relação ao PT e a Lula ao longo de todos esses processos kafkanianos que colocaram em movimento o Golpe de Estado.

  2. Quando discordo de Wanderley Guilherme, em geral com o tempo acabo dando razão a ele. Mas mesmo assim vou reincidir: nesse momento o que os porta vozes do golpismo mais desejam é tornar fato consumado a expulsão de lula da sucessão presidencial, e junto com ela a naturalização da trapaça jurídica que é a condenação de Lula e a própria Lava Jato acabou se revelando. Manter Lula candidato é manter em disputa esse conjunto de sentidos e narrativas com pretensão ao senso comum. E de manter no centro dos debates a abjeta aliança antidemocrática, antipopular e antinacionalista entre setores poderosos da economia (as forças ocultas de sempre), grupos de mídia e parte influente do judiciário. Por isso, creio que os verdadeiros democratas entenderão isso e no momento oportuno (nos próximos meses) não se fecharão a alianças ainda mais fortes e eficazes na medida em que se prolongue a vergonha global e ausência de perspectivas a que todos fomos expostos pelo anacronismo e absoluto vazio de idéias, de visão de mundo ou de projeto de qualquer espécie que envolve hoje os representantes dessas mais que velhas, velhacas elites econômicas, midiáticas e judiciais

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