Arquivo da tag: Santos

DE MAL A PIOR

Tudo ainda vai piorar. Os democratas progressistas têm enorme dificuldade em aceitar a gravidade de dois problemas: a) que a democracia não garante a melhor solução para todos os desafios; e b) que ela própria, democracia, falha em importantes aspectos de suas promessas. A histórica incapacidade de combater a miséria sem aumentar a desigualdade é um dos desafios da primeira ordem; que o sistema representativo seja capaz de gerar incompatibilidade entre seus próprios valores é uma dura deficiência da segunda ordem.

História econômica e as estatísticas contemporâneas ilustram a persistência do dueto entre menor taxa de desigualdade e maiores taxas de miséria ou de piores condições de vida. Os exemplos escandinavos contrariavam a tese durante o período de bonança capitalista, mas a recuperação da fatal crise de 2008 os obrigou a comprometer a heroica rede de proteção social de que desfrutavam e a restabelecer o dinamismo regressivo da renda. Para os países recém-chegados ao desenvolvimento industrial – na África, no Oriente e na América do Sul -, o retrato é idêntico. Com efêmeros interregnos de recuo na desigualdade, o padrão é conhecido: melhores taxas de desenvolvimento econômico são acompanhadas de pioras nos índices de desigualdade. Houve tempo em que os economistas progressistas repudiavam críticas ao desenvolvimento desequilibrado acusando os insatisfeitos de defensores de um socialismo da miséria. A Índia era um exemplo recorrente: estagnação crônica com baixíssimos valores no coeficiente Gini de desigualdade.

Hoje, aos hábitos predatórios do empresariado somam-se as consequências da revolução digital, entre elas a deterioração assustadora da empregabilidade dos assalariados. Os conservadores acenam com a inevitabilidade do fenômeno, aconselhando aos trabalhadores esforçarem-se por maior qualificação educacional. Omitem que a equação infernal consiste na exigência de habilidades superiores para um número assustadoramente menor de empregos. A primeira e a segunda revolução industrial agonizam e o novo mundo capitalista cobra políticas fiscais e monetárias hostis à maioria dos assalariados. É nessa carreira que os marionetes no poder estão matriculando o Brasil, a pretexto de dotar de racionalidade a política governamental. Estúpidos, estão, sem preocupação com a criação de instrumentos de defesa, acelerando o confronto com a mais devoradora irracionalidade da história da humanidade: o aproveitamento do valor de uso do trabalho para a liquidação de seu valor de troca. Quando esses sociopatas forem despejados, caberá aos democratas progressistas registrarem com lucidez a envergadura do problema, embora prioritariamente empenhados em descobrir fórmulas que o compatibilizem com padrões civilizados de competição econômica.

Politicamente, faz parte da história que a conquista do voto pelas multidões afastou a maioria dos homens de posses dos cargos públicos. Servir ao bem público, ainda que com ligeiras ou potentes pitadas de ilicitude entre eles, era parte do código de conduta de nobres e endinheirados. Tratava-se de competir por aplausos à dedicação do interesse público, preservados os mecanismos legais de acumulação de riqueza. A universalização do direito de ser votado, reverso autônomo do direito de votar, abriu o mundo político à população adulta. Dispor de dinheiro e títulos para fazer política deu lugar a fazer política para ganhar dinheiro. A maioria das pessoas de bens dirigiu-se à burocracia, às empresas e às profissões liberais, reduzindo, em todos os países, a qualificação da representação política. Ser habilidoso político, rico, nobre ou pobre, não garante seja excelente pessoa pública. A adesão do eleitorado ao bem comum, mesmo quando é baixa, é muito mais firme do que a do coletivo de políticos. Quando um eleitor “vende” seu voto em troca de iluminação de ruas e habitações, o serviço, se providenciado, trás benefícios à comunidade inteira. Mas ao político pode render considerável vantagem privada. Basta negociar com os futuros empresários da obra.

Só tosco negativismo desconheceria a contribuição de notáveis cidadãos que, efetivamente, se dedicam à política de acordo com os manuais idealistas da carreira democrática. Mas é higiênico reconhecer que o “centrão” é a espinha dorsal de todas as democracias representativas. Variam o sotaque, a extensão e a natureza da propina. Varia também a capacidade do eleitorado em promover vigilância e punição dos faltosos. Mas o azeite é o mesmo.

O temor dos democratas à acusação de cinismo impede-os incorporar na aplicação de juízos valorativos a insuperável restrição de que sistemas eleitorais não filtram caráter. Sistemas proporcionais, majoritários, mistos, de lista aberta ou fechada, impactam a intensidade da competição eleitoral, o custo da eleição, as relações entre dirigentes e militantes partidários, entre outros aspectos, nenhum deles alterando a qualidade da representação a ser eleita. Não é por rejeição às regras eleitorais que as “pessoas de bem” não optam pela atividade política. É porque preferem ganhar dinheiro de outra maneira. Os democratas não superam e nem mesmo admitem a existência desta fragilidade básica da democracia, a de que falta antídoto igualmente democrático para saná-la. E, sem democracia, então, nem pensar.

Tudo ainda pode ficar pior, especialmente se os democratas continuarem se recusando a perceber de que modo o pior pode acontecer.

NENHUM PAÍS…

Deve existir outro país em algum lugar desse exagerado território, anonimamente infiltrado nas desatenções da população atual, visível e indiferente. Provavelmente terá juízes, empresários, profissionais liberais, operários nos campos e nas fábricas, artistas, cientistas, praias, florestas e montanhas, cabras e onças pintadas. Os dias se alongarão por vinte e quatro horas, alternando claridade e breu, ora com acompanhamento musical de mudos raios solares, ora com arranjos desafinados de pingos de chuva. O comércio funcionará normalmente o ano inteiro, abastecido pela produção industrial, de boa qualidade e em constante inovação, circulando a preços razoáveis. Número apropriado de farmácias e bares, vistas as taxas reduzidas de enfermos compulsórios e de bêbados desesperados. Lugar de onde se vá daqui a acolá apreciando paisagens hospitaleiras, nada especialmente, apenas sucessão de bairros sem ocupação militar ou paramilitar, nem conjuntos de casas e pessoas contidas em cativeiros sob a vigilância armada de proxenetas da fragilidade de alguns: cocainômanos e assemelhados. Marcam-se encontros noturnos em esquinas para a troca de notícias, esticar as pernas, inventar anedotas e jurar de pés juntos que as lorotas que contam são a mais pura verdade – a visão de um disco voador, um macaco que sabe multiplicar e dividir, as grandes e ricas pastagens que avós imigrantes abandonaram em recanto europeu, e que um dia herdarão. Depois, vão-se todos, vagando por ruas iluminadas, acolhedoras, em direção às casas nas quais escolherão uma das múltiplas opções de competente noticiário de telejornalismo, ou de entrevistas informativas, ou filmes, antes do sono se aproximar. Esse outro país existe, provavelmente, bem mais interessante e cheio de pulsão e diversidade do que esbocei sem grande esforço. Mas seu nome não é Brasil.

Nem lá, contudo, sobrevive a utopia democrática, concebida por seus advogados como projeto de futuro a ser instaurado pela virtude gestante da humanidade. Fabricada mediante labuta centenária, abrigava o projeto a expectativa de que dela cuidassem seus beneficiários. Fracassou. Esgotou-se a ideia como apelo eficaz à cooperação, convertida em escudo protetor de todas as ambições predatórias. Pareceu vingar durante a segunda metade do século XX, mas foi-se revelando que a insanidade a envolver elites e povos não resultava ora da ação de líderes malévolos, ora de desigualdades sócio econômicas, ora de ocasionais cegueiras da razão. Não. A crença iluminista de que a humanidade portava uma reserva ontológica de juízo não se sustenta na história. Em condições propícias, a espécie é fascinada pelo mal, sem distinção de raça, classe, gênero ou idade. O tempo presente descobriu que a democracia, ela mesma, patrocinou a manifestação em escala sem precedente de bilhões de egos facinorosos, em conflito ilimitado, de cima abaixo, de norte a sul, de leste a oeste, entre ricos e pobres, homens e mulheres, jovens e anciães. Não existe nobreza em nenhum lugar social. O projeto democrático é excessivo para o potencial da espécie

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX