NO TEMPO FELIZ DE OUTRORA

Ninguém é feliz quando depende de modesta parcela de benevolência governamental para não morrer de fome. O programa Bolsa Família foi um recurso de emergência, a crédito da visão e compromisso de classe do presidente Lula, mas não é virtude para orgulhar país nenhum. A rápida expansão da iniciativa, alcançando milhões de pessoas em dois anos, justifica o prestígio do ex-presidente Lula junto às classes pobres. Do mesmo modo, programas de eletrificação praticamente gratuita nos confins da nacionalidade, distribuição de alimentos e serviços diversos, sem contrapartida financeira dos beneficiados, contribuem para o mérito dos governos do PT e a gratidão, em votos, de que é receptáculo. Mas, só em perspectiva mesquinha do valor integral do ser humano é possível considerar que tenha sido um tempo feliz.

A rede de proteção social brasileira, frágil, como frágil era a população por ela protegida, foi destruída sem dificuldade pela ousadia de golpistas bem sucedidos. Há lições inscritas no âmago desse desastre. Se o rol de políticas sociais e os números dos atendidos recebiam aplausos internacionais, revelavam, pelo avesso, nossa vergonhosa condição civilizatória. Que país é esse no qual incalculável multidão de seres humanos necessita de tão pouco para não sucumbirem à fome? Que país é esse em que enorme contingente de cidadãos só conhece a energia solar, vivendo nas condições pré-industriais da eletricidade ainda indomada? A vaidade partidária cegava e cobria de brocados nossa nudez primitiva.

Uma política social civilizada tem por objetivo tornar-se dispensável com a eliminação da carência que a justificava. Enquanto programas como Bolsa Família e outros proporcionarem doses tópicas de felicidade à miséria da sobrevivência, continuaremos campeões paraolímpicos da justiça social. É provável que nossos bravos campeões paraolímpicos preferissem competir contra os candidatos a campeões nos certames olímpicos. Tal como o pódio por indicadores positivos de justiça social é disputado entre países como a Noruega e a Dinamarca. Em nenhum deles existe Bolsa Família ou Luz Para Todos; eles disputam taças olímpicas.

Enquanto políticos prometerem restabelecer o Programa Bolsa Família como espetacular retorno a um tempo feliz, programa paradigmático da paraolimpíada da justiça social, eles estarão propondo à população não mais do que conformismo com a condição de pensionista unilateral da benevolência do Estado.

Toda política social precisa ser apenas emergencial, cujo destino é desaparecer por inútil, mesmo quando o prazo previsto seja longo. Fazer da política social uma iniciativa crônica, ou monopólio propagandístico de um partido, equivale à confissão de que o alvo mirado pelo benefício não é o ser humano integral, mas o voto de que dispõe. Quanto mais longo for o tempo da paraolimpíada social, maior a recompensa eleitoral de quem a cultiva.

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