O SÍTIO ATRÁS DA PORTA

Troia foi sitiada pelos espartanos durante dez anos. Derrotada, teve os homens adultos executados, mulheres e crianças escravizadas. Esse era o costume no mundo antigo, usual durante a Idade Média, chegando à Segunda Guerra Mundial. Com o tempo, o assassinato de homens e mulheres dos países vencidos limitou-se aos rebeldes e à prática de mera selvageria em territórios ocupados, mas o trabalho forçado permaneceu. Até hoje.

A condição de estar sitiado(a), incapacitado(a) de agir conforme vontade própria adquiriu requintes psicológicos, isenta de exibições físicas, nem por isso menos letal. O isolamento psiquiátrico confere às autoridades hipocráticas o mesmo poder sem controle dos gerentes dos campos de concentração nazista e dos programadores de gigantescos bancos de informação em propriedade de megacorporações. À milenar redução feminina a de seres autômatos, por imposição explícita de costumes e leis, juntaram-se técnicas de manipulação que, mesmo identificadas, continuam a salvo de repúdio eficaz.

Por aqui, o Judiciário sitia o Legislativo, que sitia o Executivo, que sitia as empresas públicas. Os militares sitiam o STF, que sitia a Constituição, que a ninguém mais resguarda de sítios atrabiliários. O sistema Globo de comunicação sitia a opinião pública e o mercado de trabalho dos jornalistas, milícias sitiam as comunidades mais pobres, comércio e profissionais liberais (advogados e médicos) sitiam a economia popular, enquanto a Lava Jato sitia os presos “provisórios” até sucumbirem à servidão delatora.

Uma comandita judiciária sitia Lula desde 2014 e, a partir de 7de abril de 2018, o tem sitiado em local de controversa designação: cela, sala de estar sem direito a visitas, instalação provisória ou mórbido mostruário. Cá fora, grupos de DNA suspeitos, ora trovejam como no Olimpo, outros se insinuam em fotos e vídeos, garantindo votos em nome do sitiado de exceção, outros se autodesignam vigilantes do canonizado falatório sebastianista, expondo ao opróbio os rebelados contra o catecismo de ilusionismo político destinado a seduzir incautos.

Houve tempo, antes dos sítios, em que era seguro confiar nas lideranças das esquerdas que, competindo entre si, se igualavam na integridade de propósitos e na decência de seus pronunciamentos sobre os competidores. Hoje, quem acredita que o certificado de amigo do povo é o berro que intimida divergências e a frivolidade das excomunhões de ideias sem censura? Hoje, até as esquerdas sitiam a si mesmas. Às vezes, dentro da própria casa.

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Um comentário sobre “O SÍTIO ATRÁS DA PORTA

  1. Vem aí a “servidão delatora” de Antônio Palocci e o circo dos horrores sob a batuta da Globo: o povo é bobo: não vê o sítio atrás da porta. Muuuu, méééé. É isso: as “técnicas de manipulação….continuam a salvo de repúdio eficaz”.

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