O FLAGELO TEMER

Lidar com um governo em que o todo é menor do que a soma das partes exige prudência. Trata-se de perigosa engenhoca com dispersos centros de comando e trajetórias doidivanas. Depois dos fatos, qualquer maluquice parece planejada. Ilusão temporal: uma coisa depois da outra não quer dizer uma coisa por causa da outra. O bando brasiliense ouviu cantar o galo sem saber aonde e responde às tamancadas: decreto daqui, medida provisória dali, vetos, desvetos, contra medidas e engavetamento dos próprios projetos, quando não, reversão (redução no número de ministérios). Tudo depende de algum grito contraditório, exceto, naturalmente, se a reclamação for do povão ou de seus alto-falantes, sempre negligenciados. Se do Judiciário, imprensa conservadora ou associação empresarial, aí, o bando “arrecua os beque” imediatamente.

Todo ser humano dotado de senso comum operacional percebe o drama contemporâneo: governantes eviscerados de tino ou decência, notórios contraventores, vulgares na ideologia e na linguagem, patrocinam o mais estabanado ingresso na reação conservadora global, de onde provêm os esganiçados cocorocós. Se há certo materialismo vulgar em parte da esquerda, o conservadorismo vulgar de Michel Temer, seus cúmplices, e lambe-botas é aterrador. A cafonice do Executivo interpreta exemplarmente a cafonice do Legislativo. Ou vice-versa, dá no mesmo.

Contudo, a lei garante eficácia material a tais agentes, mesmo burlescos. Os motivos fúteis dos atentados administrativos provocam extensos danos na economia popular, nos graus de autonomia do país e em seu crédito de seriedade internacional. Pior, adesão à democracia obriga a tolerá-los pelo prazo constitucionalmente contratado, embora o governo tenha nascido, sabidamente, de constrangedor assédio às normas constitucionais. Se há algum método na fuzarca, trata-se de ir prometendo sacrifícios de austeridade, embora não para todos os segmentos sociais, e racionalidade nos gastos públicos, expressa até agora, tão somente, nas descaradas transações de compra de voto das famílias parlamentares, com a poupança gerada pelos cortes nos programas sociais.

Esperançosas interpretações midiáticas de resultados econômicos pífios esbarram no materialismo vulgar da economia real. Os ritos de submissão à banca internacional e nacional têm provocado não mais do que graves desequilíbrios no perfil de consumo nacional, expulsão do mercado de trabalho de futuros desalentados, que a ele não voltarão, desorganização e fragilização da estrutura industrial e da infraestrutura, e obscurantismo cultural. Não haverá saldo perene a ser preservado.

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