CONFISSÃO DE IGNORÂNCIA

Bem, não sei interpretar o momento nacional. Somando a reduzida previsibilidade e credibilidade de instituições centrais da democracia: partidos políticos, imprensa e decisões de governo – sobra pouco para garantir racionalidade ao quebra-cabeça resultante.
Pior, parece-me que nem governo nem Legislativo se encontram em situação muito mais sólida. Mesmo a imprensa, sempre coerente em seu estranho afazer, ora incensa ora amaldiçoa suas fontes anônimas e seus ídolos arroz de festa de inúteis reportagens. A economia é uma, nas declarações ministeriais, e outra nos indicadores e pesquisas de institutos acadêmicos. A crer no currículo de fracasso de ambos, ambos devem estar errados. Exceto se peco por implicância, as personagens políticas, desgastadas em entrevistas diárias, são já insuportáveis, tanto quanto a xaropada de colunistas sobre corrupção alheia e as previsões despudoradas das autoridades, qualquer autoridade, sobre este, aquele, ou qualquer assunto.

O Judiciário entrou na roda. Não só pelos indícios de arbitrariedades em algumas investigações, mas por surpreendentes novidades interpretativas. A mais recente convoca a figura criminal de alguém ser “suspeito de ser suspeito”, que não é assim nomeada, mas único entendimento possível para justificar prisões controversas. Por pouco não se obriga a população à cruel escolha da narrativa bíblica entre o bom ladrão e o mau centurião. Em cinemas de bairro o bom ladrão acaba aplaudido. Aliás, o que deve fazer um ladrão para ser bom? Talvez o que tem feito o reincidente criminoso e delator Alberto Youssef. Transcrevo O Globo, 29/11/2015, página 5. Incapaz de explicar como passava somas clandestinas a enorme lista de políticos, o doleiro foi ajudado pelo inquisidor da seguinte maneira: “Questionado no depoimento se os nomes de outros deputados poderiam ter sido incluídos só para que a cúpula recebesse mais repasses (bola levantada pelo agente público – WGS), o doleiro disse que não se pode duvidar disso”. Não se pode duvidar? Quer dizer, a suspeita do agente ganhou comprovação pelo juízo abalizado do doleiro? E aí o doleiro fez o gol de placa da moral da Lava Jato:

“‘Dessa gente pode se esperar tudo’, registra o termo do depoimento do doleiro”.

Alberto Youssef passou a ser, oficialmente, o inspetor dos costumes políticos brasileiros.

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