VERGONHA E REDENÇÃO À ESQUERDA

Em sessenta e cinco anos de história brasileira, os grupos políticos à esquerda amealharam algumas dolorosas derrotas. Logo ao início dos anos 50, feroz oposição liderada pelo Partidão ao segundo governo de Getulio Vargas só cessou quando a oposição conservadora emudeceu perante o suicídio presidencial, em agosto de 1954. A memória seletiva da esquerda tradicional apagou a ferida de que a morte de Getulio não calou apenas a direita.

Triunfalismo na interpretação da vitória sobre a tentativa golpista de impedir a posse de João Goulart, em 1961, estimulou radicalismo esquerdista crescente que, somado à míope presunção antecipada de poder, manietou o governo trabalhista e pariu a anestesia de todos os setores da esquerda, espectadora aturdida da marcha patusca de Mourão Filho, em 31 de março/ 1 de abril de 1964, transformada em vitória da reação, quarenta e oito horas depois, sem enfrentar resistência séria. A versão canônica da esquerda some com vários personagens do enredo e coloca fuzileiros navais americanos, que não estavam no roteiro, dando sentinela às portas do palácio do Governo, recebendo os golpistas que atravessavam a rua, vindos do Congresso. A derrota perdurou por 21 anos.

A partir de 1969, com o início da segunda edição do golpe civil-militar, registrada como Ato Institucional nº 5, veteranos de organizações revolucionárias convocaram a paixão de generosa juventude e acreditaram na via armada para o socialismo. A desilusão com as históricas lideranças progressistas, particularmente com o Partidão, cobriu de simpatia o apelo heroico e, a acreditar no testemunho posterior e memorialístico de sobreviventes, o estoque natural de solidariedade dos dezoito anos fez com que muitos ingressassem na rebelião acompanhando amigos de geração ou colegas de colégios e universidades. Para alguns mais lúcidos, a guerra foi perdida quando se deram conta de que “reagrupamentos de forças” escondiam contundentes derrotas físicas e, mais friamente, quando a taxa de recrutamento de combatentes ficou sistematicamente abaixo da taxa de perdas por desaparecimento, morte e prisão. Duríssimos momentos em que a rendição significava aparente e irreparável traição emocional aos companheiros mortos pela causa que estavam prestes a confessar perdida. Desde 1974, a tentativa revolucionária, como opção coletiva, estava destruída. Os militares, no entanto, fizeram dos mortos fantasmas a assustar conservadores e liberais por mais 11 anos.

De todas as desventuras, inclusive menores, os grupos à esquerda saíram feridos, mas não envergonhados. O rubor nunca fez parte do cardápio do campo progressista da política. Até recentemente. Por maior que seja o exagero e a falsificação do noticiário, por extensa que se prove a arbitrariedade do judiciário curitibano, não é possível à esquerda fingir que não é com ela. Reinterpretar a história para ficar bem na foto é estratégia eficaz enquanto a emoção não entrega os pontos. E não há cremes e batons que disfarcem o embaraçoso corado da face, o caminhar desorientado, o desânimo vocal. Trata-se de uma prostração histórica, não da batalha circunstancial de uma eleição ou outra. Vitórias eleitorais serão importantes, mas insuficientes para convencerem bons filhos a retornarem à casa antiga. A ruptura com os seduzidos pelos nefandos hábitos da direita privada, sempre pronta a expropriar clandestinamente os recursos públicos, é inevitável. Difícil e triste, pois exige autocondenar a negligência com que cada um se deixou encantar por um punhado de bravos, que o foram, quando deixaram de o ser. Crimes da direita não redimem pecados da esquerda.

A favor dos direitos civis e políticos de todos, não satisfaz à esquerda, contudo, refutar ilícitos de que herdaram a responsabilidade política com a denúncia de ilícitos cometidos pela processualística das investigações. A purga do desencaminhamento será amarga e lancinante. A começar pelo desconforto de reconhecer por ações e palavras que parte dos decaídos, a maior talvez, não está mais entre nós. E convocar os dispostos à longa reconstrução institucional do destacamento de vanguarda do país. A contabilidade de quantos bons filhos de boa fé sobraram é urgente.

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4 comentários sobre “VERGONHA E REDENÇÃO À ESQUERDA

    1. Petralhas sempre prourcam culpados, se algum cortar algumas e1rvores vai e0 delegacia denunciar o caseiro ou ate9 a sua motosserra, dire1:”eu nunca cortei uma e1rvore, quem corta e9 a motosserra.*** O rato acima ne3o e9 petralha pois os petralhas ne3o sabem fazer textos de ironia de humor negro sem chutar o balde ou faltar palavras, pode ser ate9 um coturneiro muito indignado e que se acusa de burro, palhae7o e etc… a linguagem petralha a gente conhece e tem muito termo usado na era do muro de Berlim e estas antas ainda parecem ne3o acreditar que o socialismo real sovie9tico e9 passado e hoje existe uma Rfassia autorite1ria e capitalista de estado mas apenas o lado menos ruim do socialismo foi mantido, Putin era o chefe da KGB no tempo de Gorbatchev e com o fim da URSS ele e o pingue7o Bf3ris Yeltsin foram governantes da

  1. Prezado professor Wanderley. Parabéns pelo blog. Será um espaço privilegiado para a discussão séria sobre o Brasil e o mundo. Agora um texto meu sobre a esquerda atual: A história de José Dirceu chegou ao fim, bem como a do Partido dos Trabalhadores. Depois do mensapetrolão o PT pode até continuar a existir como o PTB continuou sem Leonel Brizola; sobreviverá como um caput-mortuum. A história dos dois se confundem. Sempre considerei o Partido dos Trabalhadores como espécie de canto de cisne da Terceira Internacional Comunista. Não só o PT, o próprio movimento chavista bolivariano. O Partido dos Trabalhadores foi gestado durante o ocaso da Guerra Fria, membros que inauguraram o PT foram treinados para a guerrilha em Cuba. Antes de exportar médicos Cuba exportou guerrilheiros. O metalúrgico Luis Inácio da Silva deve a oportunidade histórica de se tornar presidente da República ao comunismo. Como o PT foi um fruto serôdio (aprendi essa com Ulisses Guimarães) de inspiração terceiro-internacionalista, ele se fantasiou com os símbolos daquele movimento (a cor vermelha e a estrela de cinco pontas) quando o mundo contemporâneo já demandava um partido de massas radicalmente democrático (no sentido de democracia progressiva afeita a mudanças).
    Quando o Partido dos Trabalhadores nasceu, a classe trabalhadora brasileira já tinha seu partido, o PCB –Partido Comunista Brasileiro, um partido que possuía em sua bagagem histórica uma tentativa de tomar o poder na marra (a Intentona de 35) e um capital teórico-político respeitável que foi desprezado pelo PT ( o professor Raimundo Santos tem se dedicado a escrever a história desse legado do PCB). O PT sempre foi um partido pobre de bons intelectuais de formação marxista (Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho terminaram lá, mas eram pecebistas da gema). Como um adolescente que se afirma adotando uma identidade em oposição ao pai, o PT sempre procurou se diferenciar do PCB, mas nunca negou as bandeiras do socialismo, embora o tenha feito na prática. Ao adotar o nome “partido dos trabalhadores” revelou imaturidade teórica. Claudio Napoleoni em seu livrinho pequeno mas profundo: Tudo Começou com Maquiavel diz que partidos que precisam se afirmar como sendo “operário”, “dos trabalhadores” são típicos da infância ou adolescência do movimento proletário.
    Na história do PT, como dissemos no início, duas figuras se destacam, Lula e Zé Dirceu. Lula, o operário puro-sangue, catapultado diretamente de um torno mecânico para o mundo da política, um homem de inegável carisma, e segundo Ferreira Gullar, “espertíssimo”. Zé Dirceu, o intelectual orgânico da classe operária. No projeto do Partido dos Trabalhadores, Lula entrou com o cacife de ser um líder operário, figura endeusada pelo marxismo ingênuo; e Zé Dirceu como o autor intelectual. Lula era o nariz de cera, o estandarte que ia na frente, que aparecia. Zé Dirceu era o Golbery do PT, a eminência parda. Qual dos dois é mais importante no caso do projeto de poder do partido? Zé Dirceu, é claro. Agora, desde que Dirceu foi apanhado para Cristo pela direita brasileira, que segundo Darcy Ribeiro, “é a mais competente do mundo” (entendendo por isso a que sabe melhor explorar seu próprio povo), Lula passou a ter uma pauta própria. Isso era um processo inevitável especialmente depois que Dirceu foi parar na cadeia.
    Para começar a concluir, o Partido dos Trabalhadores veio, viu e quase venceu. Começou a perder. O PT, mesmo com seu ranço terceiro-internacionalista, insuflou a esperança do povo brasileiro para no final das contas tudo voltar a ficar como dantes no quartel de Abrantes. Zé Dirceu chegou a adquirir dimensões míticas, ele era uma espécie de Lênin brasileiro. Ledo engano de quem fez essa comparação. Dirceu na verdade encontra-se há anos luz de distância atrás de Lênin. O líder bolchevique era careca, mas mesmo que a tecnologia de implante de cabelos existisse no tempo dele, jamais faria uso dela como fez o líder petista. Lênin jamais usaria roupas de grife como faz Dirceu. Resumindo, Dirceu é um dândi. Uma vez José Dirceu afirmou em alto e bom som que ele era “um capitalista”. Tal frase jamais sairia da boca de Lênin.
    O líder soviético era um publicista e escreveu dezenas de livros, um deles o “Que fazer?”. Ao final da aventura petista no poder a José Dirceu resta apenas escrever sua obra prima, o livro “Que merda!”.
    Um detalhe sórdido, José Dirceu se corrompeu quando se aproveitou dos esquemas de corrupção para o enriquecimento ilícito. Tuminha já havia dito em seu livro que Dirceu tinha conta bancária em paraíso fiscal e não foi contestado nem processado por ninguém. Agora vem a Lava-Jato para confirmar que isso é verdade.
    Que Paulo Maluf, a família Sarney, e Barbalho, etc., façam isso dá para entender, afinal eles são burgueses e inerentemente corruptos. Agora, um pretenso líder de um partido operário, um intelectual orgânico da classe trabalhadora brasileira fazer isso, faz dele o mais podre dos corruptos.

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