A reação das ruas

A sede do reacionarismo mudou-se de Minas Gerais para São Paulo. Parte da razão é econômica. Entre 2002 e 2012, só os estados do Norte, Centro-Oeste e Nordeste, com exceção da Bahia, aumentaram a contribuição de suas economias para a formação do Produto Interno Bruto. Atribuir a desconcentração econômica exclusivamente aos governos petistas seria tão simplista quanto convocar apenas a sabedoria do mercado para explicá-la. Com participação cadente no PIB nacional, a economia paulista enfrenta um crescimento medíocre nos últimos anos, com substancial retração anunciada para este ano, 2015, e, pelo menos, o próximo, senão ainda 2017. Quando a liderança de um país escolhe a ladeira da recessão, é muita ousadia, talvez presunção tecnocrática, proclamar quando ela irá terminar. A incerteza de que falam os porta-vozes jornalísticos não é do País, mas a da que paira sobre o destino da geração empresarial afilhada da ditadura.

Como de hábito, em momentos cíclicos desfavoráveis o empresariado esquece noções primárias de economia. O alienado da ficção de Nelson Rodrigues era a favor do capitalismo, embora contra o lucro. Agora, vários imaginavam um ajuste fiscal com manutenção do nível de consumo. Não há panelaço à altura de semelhante tolice. Reduzido o tamanho do bolo e posta a economia em pandarecos, a competição entre segmentos empresariais adquire vocalizes bárbaros, com origem em sua garganta inflamada – São Paulo. A histórica truculência da política bandeirante contaminou a cultura cívica nacional, os vitupérios se abrigam nas reportagens e nos editoriais, a pornografia e o mau gosto florescem no mundo da internet e de medíocres colunas jornalísticas. A guerra civil paulista foi exportada para Brasília. O palavrão virou estilo!

De junho de 2013 a 2015 o protagonismo baderneiro de São Paulo foi crescente. Baderna institucional e, como o capitalista ideológico de Nelson Rodrigues, alienada. Ser responsável por quase 40% do total nacional de manifestantes, como o foram os paulistanos em 16 de agosto último, será heroicamente lembrado em futuros editoriais e teses de pós-graduação no circuito universitário de São Paulo. Claro, caso os movimentos de esquerda e o governo de Dilma Rousseff, que lhes deu as costas, sejam definitivamente enforcados no palco da hipocrisia nacional. Um resultado, porém, será certo: não há substituto de governo que amenize o futuro imediato de um parque industrial que ainda não justificou o regime de engorda obtido desde o governo JK. Em outras palavras: o mau gosto continuará desfilando na imprensa, nas ruas e nas tribunas. Este, sim, é um carnaval decadente.

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4 comentários sobre “A reação das ruas

  1. Muito bom Beto. Sem vocea jamais taiermos estes momentos registrados. Espero que a ABES tenha como armazenar este acervo para no futuro relembramos o nosso passado. As coisas boas que estamos fazendo Uma abrae7o, Vitorio.

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