A LAVA JATO E O PARTIDO DOS TRABALHADORES

novidade política da Lava Jato é a revelação de que o Partido dos Trabalhadores cedeu à tentação de patrocinar e se beneficiar das relações espúrias entre interesses de grupos privados e iniciativas públicas. Faz parte da história intestina de todas as sociedades acumulativas o víruS da predação, do suborno, do saque, da extorsão e da violência em busca de vantagens além dos méritos competitivos. O Império inglês foi assim construído, incluindo associações clandestinas com piratas e corsários, no século XVIII, e escândalos internos sem fim desde o XIX; a riqueza das cidades hanseáticas e italianas que financiaram os jardins artísticos do Renascimento, seus pintores, arquitetos e escultores, essa riqueza foi obtida mediante fraude e corrupção de bandidos inescrupulosos e violentos, organizados em poderosas companhias de negócios. A grande arte flamenga e espanhola é rebento da generosa dissipação de recursos de ladrões e assassinos em versão marqueteira de mecenas. O extraordinário progresso material norte-americano a partir de meados do XIX colocou na galeria cívica do país os “robber barons”, sabidos e consabidos corruptos, genocidas, paradigmas das administrações libertinas e extorsivas das grandes cidades contemporâneas como Chicago, Nova York, Los Angeles ou Kansas City, sempre com a cobertura midiática de campanhas moralizadoras. As fraudes eleitorais são discutidas tão abertamente quanto o financiamento de campanha e não é segredo que a vitória democrata de John Kennedy contra Richard Nixon nada teve de católica (acobertada pela patranha midiática de que Nixon perdeu por causa do último debate na televisão), com os Republicanos dando troco na roubalheira da Flórida que deu a vitória a Bush Junior sobre Al Gore. Tudo supervisionado pelas autoridades eleitorais. Ninguém chia, trata-se de assunto exclusivo entre eles: dos roubos econômicos aos roubos eleitorais. O vírus está lá, agora protegido nos portfólios do sistema financeiro mundial.

A história recente do Brasil não fica a dever.  A começar pelas obras marcantes da ditadura, de onde brotaram progresso material, liquidação física dos opositores e mágicos milionários, de sucesso inexplicável. Da tolerância democrática de José Sarney restou a criminosa entrega da propriedade pública das comunicações a um prático monopólio de golpistas centenários, corruptor de jornalistas, escritores, artistas, políticos. O monopólio das comunicações é atualmente o único poder irresponsável no País, exercido com brutalidade e a ele se curvam os demais, inclusive o poder judiciário. Fonte de corrupção permanente, manteve como assunto inter pares os escândalos financeiros do governo Fenando Henrique Cardoso, as trapaças das privatizações e a meteórica transformação de bancários em banqueiros, tendo o BNDES como rampa de lançamento. Assim como guarda no porão do noticiário a ser mobilizado, caso necessário, os rastilhos da política tucana em Minas Gerais e em São Paulo. Todos, juízes, ministros, políticos, procuradores, cantores, atrizes, narradores de futebol, são todos terceirizados do Sistema Globo de Comunicação.

Nesse País, por surpreendentes acasos, todas as investigações envolvendo os companheiros da boa mesa, pecaram por vícios de origem e devidamente esquecidas. Menos a Lava Jato, que segue aparentemente de acordo com as rigorosas regras judiciais, de que dá testemunho o Ministro Teori Zavaski. Qual é a novidade?

A novidade não é o roubo nem as relações ilegítimas entre agentes privados e públicos. Todos os consultores, projetistas, jornalistas, escritórios de advocacia econômica, todos que fingem ultraje ao pudor sempre foram não só cientes como, no todo ou em parte, beneficiados pelo sistema virótico da sociedade acumulativa brasileira. Enriqueceram e vivem como parasitas do sistema nacional de corrupção. A novidade é que o Partido dos Trabalhadores entrou como sócio, apresentando como cacife os milhões de votos daqueles que nunca foram objeto de atenção. Candidatou-se ao suicídio.

A caça ao intruso foi imediata. A cada política em benefício dos miseráveis, mais se acentuava a perseguição ao novo jogador, insistindo em reclamar parte do botim tradicional da economia brasileira. A penetração do PT na associação das elites predadoras era encoberta pelo compromisso real de muitos de seus quadros com o destino dos carentes. E assim como os grandes capitães de indústria, pelo mundo a fora, os nossos também cobraram uma exploração extra, uma vantagem desmerecida, uma nova conta na Suiça em troca dos empregos criados, da produção aumentada, do salário menos vil. Mas assim também como os operadores tradicionais, os petistas se entregaram à sedução da sociedade acumulativa: o roubo com perspectiva de impunidade.

A Lava Jato revelou a tragédia da vitória do capitalismo sobre a liderança dos trabalhadores. Os grandes empresários e as grandes empresas, ao fim e ao cabo, vão se safar, com os acordos de leniência e as delações premiadas, reservas que fazem parte de suas mochilas de sobrevivência. Serão nossos “robber barons” do futuro. Não assim a destroçada elite petista, à qual não resta senão acrescentar o opróbrio da traição à vergonha da confissão.

A vítima ensanguentada dessa caçada é o eleitorado petista. Muito além dos militantes, todos aqueles que saudaram e apoiaram a trajetória de crescimento de um partido que, claramente, era o deles. Os que suportaram os preconceitos, que resistiram às pressões e difamações e que viam nas políticas sociais o cumprimento de promessas nunca realizadas. Esses estão hoje expostos à brutalidade dos reacionários e fascistas, ao escárnio, aos xingamentos e ofensas. O eleitorado petista não é criminoso, criminosos são os fascistas que os perseguem nas ruas, nos lugares públicos, sem que as autoridades responsáveis tenham a decência de garantir-lhes a inocência.

Presidente Dilma Rousseff: é de sua responsabilidade e de seu Ministro da Justiça sair desse palácio de burocratas e meliantes suspeitos e garantir, e fazer governadores e prefeitos garantirem, por atos enérgicos, a integridade física e moral dos milhões de brasileiros inocentes que acreditaram na sinceridade dos membros do seu Partido. Os ladrões estão no seu Partido, não entre os eleitores que a elegeram.

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20 comentários sobre “A LAVA JATO E O PARTIDO DOS TRABALHADORES

  1. Compartilhei no Face seu artigo, com o comentário anexo.

    SOBRE A DOR DA VERDADE
    (OU SOBRE A DOR DE VERDADE)
    (OU SOBRE QUANDO A ALMA É PEQUENA)

    Anarquistas X Comunistas, contenda datada século XIX.
    Aparentemente vencida pelos comunistas aliados aos capitalistas na versão semântica corroborada pelos — sempre eles — jornalistas venais dada à palavra anarquista: sinônimo de baderneiro e terrorista.
    Duas inescapáveis diferenças entre o anarquismo e o comunismo:
    1 — O anarquista não concebe um mundo ideal para o proletariado: o mundo ideal há de ser perseguido — com as dores de parto e dos erros nas tentativas — pelos proletários, eles próprios.
    2 — O anarquista sente profundo desprezo pelo Poder — corruptor sempre — e pelos governos títeres.
    O povo é absurdamente capaz de se organizar sem as elites.
    Elites exploram e atrapalham o povo.
    Todas as experiências de colônias/comunidades anarquistas, no Brasil inclusive, deram certo e foram criminosamente destroçadas pela repressão oficial.
    Os anarquistas aceitavam disputar cargos nos legislativos nos quais, se eleitos, denunciavam/incomodavam os poderosos.

    Aí começou a fissura entre anarquistas e comunistas.

    A História nos mostra que os anarquistas nunca faltam à luta contra os poderosos quer se apresentem como ditadores sangüinários ou capitalistas ferozes. Às vezes, se aliam aos comunistas.
    A recíproca não é verdadeira: anarquistas sempre ficam pregando sozinhos.

    Há uma fascinação pelo Poder: o Jornal Nacional, as páginas amarelas da Veja, as diversas “caras” dos pedestais.

    Em tempo 1: Não sendo possível arrancar delações premiadas dos anarquistas, a repressão do Estado, via mídia tipo Globo/Veja/Folha/Estadão…, convencia a população que se tratava de um bando de ateus chegados à promiscuidade sexual.

    Em tempo 2:
    Editado.

    1. Francisco, excelente escorço das relações intraesquerda, embora tenhamos de admitir fadado a pouco ou nenhum eco, pois o comunismo (bem como as mutações por que passou por imposição do capital, como o socialismo e a mais recente, o progressismo) é filho pródigo que jamais tornará à casa do pai. Acredito mesmo que tenha sido gestado dessas incursões mesmo que bem intencionados arnaquistas fizeram, imaginando ser assim possível esgarçar o tecido da dominação a partir de dentro, às casas de tolerância criadas por monarquias e repúblicas para a fisiologia das leis, o que me parece, digo-o sem pestanejar, ingênuo, no mínimo. Ele, comunismo, já nasce demasiado infundido da genética materna, inebriado por seus desejos, embebido de seus vícios, por isso mesmo professando-se fazedor de pontes para a casa do pai, ideal e de acesso incogitável pelas massas já versadas na luta, enceguecidas por adictas da própria química que própria da prontidão para o combate.

      Enganos trágicos, sabemos, esses da coleta de mitos para fazer messias, crimes bárbaros esses de urdir outros a imagem e semelhança dos anteriores. O comunismo é um destes últimos, mas que jamais fez as pontes que prometeu e que jamais as fará.

      Resta então ao pai continuar na sua senda, apartado de todo esse buliço, o que é de sua natureza própria e de cujo abandono, ainda que circunstancial, na certa arrepende-se e com muita amargura. Como pode ter o anarquismo alucinado corromper desde as entranhas o que desde as entranhas mesmo é corrupção pura? Nunca teria experimentado esmurrar boneco de piche ou ao menos um joão-bobo?

      Definir o que seja o trabalho anarquista num mundo repleto de cercas, fronteiras, é provável ser tarefa alcançável depois de aprendermos a lidar construtivamente com os paradoxos. Mas decerto não seria aquele de enfiar-se de cabeça entre vísceras que sequer o seduzem e que dele só aproveitaram o sêmen para torná-lo pai de abominação.

      Abominação que temos de tolerar, uma vez que a despeito de ao seu modo truculento, parece ser preferível se comparado com a própria mãe.

  2. Professor, belíssimo texto. Triste e verdadeiro. Sei muito bem o que senhor diz, participei do governo do PT em Brasília, o qual foi derrotado no primeiro turno, vergonha maior somente os 7 a 1. Tanto que apelidei o Agnelo de: Agnelo 7 a 1. Um governo que se aliou ao PMDB local, um grupo que está no poder a 16 anos, desde o fim do governo Cristóvão Buarque. Gente mesquinha, malvada que não suportou em nenhum momento o governo do PT. Queriam nos massacrar se fosse possível. Mas não, Agnelo entregou todas as obras de infraestrutura para eles. O senhor imagina no que deu. Lava a jato aqui é fichinha. Se não fosse só isso até que seria “justificável”, mas a parte que lhe cabia de atendimento a população carente, necessitada de que os equipamentos públicos funcionassem para garantir uma qualidade de vida, isso não existiu. Em março de 2014 os técnicos da Casa Civil diziam temos que tínhamos que trabalhar para atender a população de Ceilândia, pois esta cidade detinha 20% do eleitorado. Sete meses antes da eleição? O que eles pensam da vida? Onde estão aqueles políticos forjados nos sindicatos que estariam ao lado da população? Isto aqui não existiu. O que vi foi uma formação tecnocrata que pouco se preocupava com o cidadão, muito menos com aqueles mais sedentos por mudanças estruturais. Um bando de incompetentes e desonestos. Agnelo e sua “troupe” pensavam que estavam no paraíso alimentado de milhões de reais todos os meses o jornaleco Correio Braziliense e, pasmem não fomentou com nem mil reais a TV Comunitária local, capitaneada pelo excelente jornalista Beto Almeida. Eles não entendem que esta imprensa que está aqui desde os primórdios, não gostam da gente, no máximo nos toleram, mas recebendo recursos públicos permanentemente. Hugo Chavez fez o correto, criou a TELESUR para dar continuidade ao processo revolucionário na Venezuela. O que temos por aqui uma TV estatal que não serve nem para agradar as crianças. Acho que chegamos ao fim da linha. O maior culpado para o fortalecimento de Eduardo Cunha é o PT, pois não entendeu que para governar precisa de deputados, não tanto senadores, mas sim de uma bancada de pelo menos 120 deputados, forte ativa que brigue permanentemente pelos ideais democráticos e sociais. A bancada do PT na Câmara é de 63 deputados, o PSB, partido praticamente recém-criado ou recriado tem 33. O que esperar de um partido que está há 12 anos no poder e não consegue eleger pelo menos um quinto de deputados federais? O senhor sabe por não elege mais? Pelo uma questão básica o PT não faz mais campanhas ideológicas, campanhas de militância. Aprendeu a comer o doce da direita e acha que com dinheiro ganha eleição. Só que para a direita fazer isso é moleza, eles não tem escrúpulos. O PT ou os seus dirigentes “máximos” se perderam na história, não sei se conseguirão reagir, ainda tem tempo, mas somente com uma depuração profunda e, principalmente tirar a presidência do partido de São Paulo. Este de grupo de São Paulo não é fácil: Mercadante e companhia. Muito Obrigado pelo texto.
    Brasília, 19h 22, 07 de agosto de 2015.

    1. Muitos desses militantes de oposição provavelmente possuem bolsa escola, bolsa disso , bolsa daquilo e cospem no prato que comeram e comem.Sou PT, acredito em tudo que o ex-presidente e futuro presidente disse.

  3. Pois é professor, o senhor pisou na bola. Não sabe diferir aproveitadores de um conjunto de pessoas com um propósito. Quiz dizer que no Brasil de sempre, sempre tiveram aproveitadores em governos e partidos políticos e disse que o partido (PT) como um todo é corrupto. Ora, por favor, tenha paciência. O PT é um partido orgânico que responde por seus atos e que comete erros institucionais, como eleger um líder do nipe do José Guimarães, mas dizer que compactua com roubo? Lave a boca. Não tenho sua sapiência mas militei e milito neste partido há mais de 30 anos. Nunca procurei cargos nem benesses. E eu sou PT. Por isso sou ladrão? Por favor.
    Tem muitos aproveitadores dentro do governo. Pessoas que se abraçarão aos cargos caso o PT perca eleições. Aderirão ao próximo governo seja ele qual for. Essa pessoas não são petistas, são meros aproveitadores, pequenos batedores de carteira. Tenho nojo deles.
    Mas os petistas que saíram de 3 deputados nas primeiras eleições em que participaram desde a fundação e agora elegeram 4 mandatos de Presidentes da República merecem respeito.
    Aguardo suas desculpas.

    1. Ao contrário que você pensa essas pessoas que batem carteiras que só querem saber de cargos públicos são petistas aliás são os fundadores do partido. Se fosse honesto você já teria deixado o partido a muito tempo . Não dá para dizer eu sou ético no meio dos ladrões O Brasil aguarda seu pedido de desculpas

  4. Tudo ótimo, a não ser quatro questiúnculas:
    1. Não foi para roubarem que os eleitores elegeram 4 governos petistas;
    2.O PT, a começar por Lula, dividiu o país entre “nós” , isto é, “Petistas $ Associados, e eles, a tal “elite branca”. Semeou o vento do ódio e agora está colhendo a tempestade. Pois faça bom proveito!
    3. O PT nunca teve um projeto de país; teve projeto de poder.
    4. Todos os partidos comunistas que chegaram ao poder (inclusive em Cuba), acabaram no mar de lama da corrupção. Eram todos farsantes. O PT simplesmente não fugiu à regra.
    Paulo Bezerra, tradutor de Dostoiévski

    1. Como faz falta homens sábios e lúcidos em nossos meios de comunicação.
      Contribuições como esta se limita a tão poucos… é uma pena!

  5. Não é tão fácil assim para o eleitor do PT pedir inocência.
    As eleições foram somente a 10 meses, antes das eleições, as denúncias do Youssef já tinham vazado e os eleitores petistas atacaram o mensageiro (o vazamento) e nem ouviram a mensagem (as denúncias). Sem contar que o escândalo de Passadena já era público!
    Os ladrões estão no partido desmascarados desde o mensalão.
    Os honestos estão fora do PT desde da divisão que resultou no PSOL.
    O eleitor da Dilma não é vítima, é cúmplice!

  6. Concordo com Luiz Eduardo. Perfeito! Esta é a situação que infelizmente não livra os outros ‘vitimados’ que atacam os que representavam ser os novos ‘Cavaleiros da Esperança’, crendo noutros novos ‘Cavaleiros da Esperança’! Talvez o equívoco seja a visão civilizatória que acabamos vestindo como fantasia caricata cultural. Gratidão professor, Luiz.

  7. Me parece que o PT está sendo condenado em bloco, livrando-se a cara dos militantes.

    Mas não são todos os políticos do PT que estão envolvidos na propinagem.

    Talvez seja o caso de considerar o partido caso perdido porque muito provavelmente a direção tenha conhecimento de tudo que ocorre, e não tem nada contra lucrar com isso.

    Talvez seja o caso de considerar o partido um legítimo herdeiro dos processos de corrupção afins à acumulação do capital que gerou o progresso ocidental, estruturado sobre a exploração do Novo Mundo.

    Talvez seja o problema da democracia enquanto sistema de diluição de poderes que na verdade desde o princípio se concentram em suas classes dominantes, e as regras do jogo impedem a ascensão de quem não respeita suas regras.

    Acho que há mais perguntas que respostas, mas, mais uma vez, talvez seja o caso de adaptar o PT às circunstâncias reais de sua condição marginal no jogo político, fazendo com que a militância haja sobre ele de forma a coibir de fato o crescimento de hostes corruptas no seio do partido, onde adesões de anomalias ao seu programa se tornaram crescentes nos últimos 12 anos.

    O PT, em suma, deve deixar de se iludir com a possibilidade de fazer parte da turma, e reconhecer um papel histórico muito mais rico, e determinante de um Novo Mundo sobre o Velho Mundo, que hoje se desfaz e parece querer levar a humanidade toda em sua necrose.

    Ou o PT assume um caráter de estruturador das grandes mudanças históricas pró-Igualdade, ou deve assumir que é apenas mais um e rasgar a máscara de esquerda que ainda tenta usar como álibi sobre seu rosto, uma máscara que tem a aparência cuspida e escarrada de José Dirceu.

  8. “Toda dor humana pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história” (Hannah Arendt)

    Sei que todos estamos aflitos com toda essa confusão, mas não posso concordar com a conclusão de Wanderley Guilherme dos Santos de que o Partido dos Trabalhadores não só tenha se beneficiado “das relações espúrias entre interesses de grupos privados e iniciativas públicas”, mas, para piorar, ainda “tenha cedido à tentação de PATROCINAR essa esculhambação histórica da “predação, do suborno, do saque, da extorsão e da violência” de que temos notícia desde que os portugueses aqui aportaram.
    Nem era preciso inventariar em cinco parágrafos, as fraudes, os saques, as violências e o embotamento social que o capitalismo engendra aqui e acolá, desde sua gênese, para anunciar a “novidade” de que o PT “entrou como sócio” do ” sistema nacional de corrupção”, além de, pior, ter se tornado aliado desses miseráveis da classe dominante.
    A “caça ao intruso”, a que ele se refere, não foi imediata: foi iniciada lá no nascimento do partido. Desde a sua fundação. Aliás, se dependesse dessa gente, o PT teria sido abortado e sequer teria existido.
    Foram milhares de pessoas e militantes como nós, que tivemos a coragem e a disposição de erguê-lo e dar concretude, mesmo com todas as dificuldades e contradições, a uma força política que de fato luta e contribui para elevar o patamar da cidadania de tantos brasileiros, juntamente com outras forças sociais e políticas pelas quais essas mesmas “elites predadoras” nutrem e disseminam a desqualificação e o ódio, e não é de hoje. É só recordar dos Amatos (FIESP) e Caiados (UDR) da vida, e das Globos e das Vejas nos momentos cruciais da vida política brasileira.
    A matreira “Operação Lava a Jato” não “revelou a tragédia da violência do capitalismo sobre a liderança dos trabalhadores”. Entretanto, deixou transparecer que o aparelho coercitivo do Estado (Polícia Federal, Judiciário etc), em conjunto com a “nossa” mídia pechisbeque cerraram uma fileira classista, não só contra um governo legitimamente eleito, mas sobretudo contra uma base social composta pelos movimentos progressistas organizados e por milhões de cidadãos e cidadãs que acreditam, ainda que de modo difuso, que um país mais justo socialmente pode e deve ser construído de forma participativa e democrática.
    Não é à-toa que, numa inversão ideológica, buscam infundir no imaginário popular, diuturnamente ( e também não é de hoje), que representamos o atraso, a instabilidade, o aparelhamento do Estado, a corrupção sistêmica e generalizada, o mal denominado “bolivarianismo”, o diabo a quatro, na tentativa de nos emparedar politica e moralmente.
    Hannah Arendt nos ensinou sobre o fascismo. Ele não tem data de nascimento, mas parece que pretendem massificá-lo aqui no país. E Isso não é culpa do PT. Sabemos identificar os neofascistas por estas plagas. A história e o cotidiano os revelam aos borbotões.
    Não gosto desse modo totalizante de tratar o Partido dos Trabalhadores, no seu conjunto, como um partido de “ladrões”. Resumir o PT aos erros grotescos de alguns quadros partidários e mesmo de algumas direções é contribuir para desconstrução de toda uma história de lutas.
    Também não acho que é apenas de responsabilidade da presidenta Dilma “e seu Ministro da Justiça”, garantir nossa “integridade física e moral”. Precisamos e estamos nos organizando, ainda que precariamente, para conter essa escalada para o golpe que, se efetivado, aí sim temo no que se transformará esse ensaio tétrico de fascismo que ronda e entremeia nossa sociedade.
    Definitivamente não somos “vítimas ensanguentadas”, como pontuou o valoroso Wanderley Guilherme, e nem o Partido dos Trabalhadores é nosso algoz.
    Não foram poucos os erros cometidos. Imperdoáveis, até. Estamos numa crise dos diabos e estamos pagando alto preço por eles. Porém, o maior erro que poderíamos incorrer neste momento, seria acreditar nessa história que só joga água no moinho dos nossos velhos e novos inimigos.

    Mauro Dias.

  9. Uma análise que começa com a assunção de que as novidades trazidas pela Operação Lava Jato sejam corretas ou minimamente isentas já peca por ingenuidade. Sou fã de carteirinha do Wanderley, mas aqui acho que comete alguma injustiça. Até aqui, a meu juízo, não provaram o caso nem na AP470, condenando por ilações e por ‘domínio do fato’, fato este não claramente determinado. Explico: não se compra o Congresso com supostas propinas a partidos nanicos e a poucos congressistas. Era caixa 2? Decerto, já que os empréstimos tomados aos bancos (e posteriormente saldados) não entraram no caixa da campanha, mas ocorreram. Segundo os acusadores, os serviços pagos com o dinheiro desses empréstimos, tomados de forma regular em bancos públicos e autorizados por conselhos de administração com vários integrantes, não se converteram em serviços de campanha – segundo os que os receberam sim. Mas não houve tempo e nem oportunidade de provar nada: apesar do libelo acusatório ter milhares de páginas, não há prova cabal contra Dirceu, Genoino … e isso foi admitido por Rosa Weber, assessorada por Sérgio Moro (juiz auxiliar convocado). Carmem Lúcia também disse não ter provas mas que ‘não podia deixar de punir a corrupção’, mesmo não comprovada. A mídia mandou no processo, desde os termo do libelo à dosimetria da pena e prazos de expedição de decisões. Queria Dirceu e Genoino presos desde o início do processo, quando no Brasil qualquer réu que não apresente periculosidade se defende em liberdade. Na Lava Jato a coisa vai pior ainda, pois prendem e mantêm pessoas presas por pura coação, para extrair confissões a fórceps. Quem não enxerga isso e não vê que é injusto – se há 5 ou 6 partidos supostamente envolvidos – o tesoureiro de um único partido estar preso, acabaria acreditanto até que Moro é um herói quando de fato não é. Os delegados e procuradores federais envolvidos professam libelos contra Lula, Dilma e o PT em suas redes sociais: parcialidade maior impossível. Essa operação está contaminada e eivada de nulidades e arbítrio, mas é mais fácil dizer que o partido dos trabalhadores pecou, caiu em tentação, etc. Os três delatores premiados principaís (Costa, Duque e Barusco) trabalham na Petrobras desde as décadas de 70/80 e já exerciam cargos de chefia em 90. Não são ‘gente do PT na Petrobras’ como a mídia cansou de impingir. Youssef trabalha em ‘parceria’ com Moro há mais de duas décadas e apesar de não ter respeitado o acordo de delação premiada do caso Banestado (algum político preso? Não.), recebe novo benefício para delatar petistas. Bonito, bacana, justo! E eu vou me candidatar a imperador em Wonderland …

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