Arquivos mensais: setembro 2018

NO TEMPO FELIZ DE OUTRORA

Ninguém é feliz quando depende de modesta parcela de benevolência governamental para não morrer de fome. O programa Bolsa Família foi um recurso de emergência, a crédito da visão e compromisso de classe do presidente Lula, mas não é virtude para orgulhar país nenhum. A rápida expansão da iniciativa, alcançando milhões de pessoas em dois anos, justifica o prestígio do ex-presidente Lula junto às classes pobres. Do mesmo modo, programas de eletrificação praticamente gratuita nos confins da nacionalidade, distribuição de alimentos e serviços diversos, sem contrapartida financeira dos beneficiados, contribuem para o mérito dos governos do PT e a gratidão, em votos, de que é receptáculo. Mas, só em perspectiva mesquinha do valor integral do ser humano é possível considerar que tenha sido um tempo feliz.

A rede de proteção social brasileira, frágil, como frágil era a população por ela protegida, foi destruída sem dificuldade pela ousadia de golpistas bem sucedidos. Há lições inscritas no âmago desse desastre. Se o rol de políticas sociais e os números dos atendidos recebiam aplausos internacionais, revelavam, pelo avesso, nossa vergonhosa condição civilizatória. Que país é esse no qual incalculável multidão de seres humanos necessita de tão pouco para não sucumbirem à fome? Que país é esse em que enorme contingente de cidadãos só conhece a energia solar, vivendo nas condições pré-industriais da eletricidade ainda indomada? A vaidade partidária cegava e cobria de brocados nossa nudez primitiva.

Uma política social civilizada tem por objetivo tornar-se dispensável com a eliminação da carência que a justificava. Enquanto programas como Bolsa Família e outros proporcionarem doses tópicas de felicidade à miséria da sobrevivência, continuaremos campeões paraolímpicos da justiça social. É provável que nossos bravos campeões paraolímpicos preferissem competir contra os candidatos a campeões nos certames olímpicos. Tal como o pódio por indicadores positivos de justiça social é disputado entre países como a Noruega e a Dinamarca. Em nenhum deles existe Bolsa Família ou Luz Para Todos; eles disputam taças olímpicas.

Enquanto políticos prometerem restabelecer o Programa Bolsa Família como espetacular retorno a um tempo feliz, programa paradigmático da paraolimpíada da justiça social, eles estarão propondo à população não mais do que conformismo com a condição de pensionista unilateral da benevolência do Estado.

Toda política social precisa ser apenas emergencial, cujo destino é desaparecer por inútil, mesmo quando o prazo previsto seja longo. Fazer da política social uma iniciativa crônica, ou monopólio propagandístico de um partido, equivale à confissão de que o alvo mirado pelo benefício não é o ser humano integral, mas o voto de que dispõe. Quanto mais longo for o tempo da paraolimpíada social, maior a recompensa eleitoral de quem a cultiva.

O PT E NÓS

A maioria do eleitorado em festa pela vitória de Lula, em 2002, não imaginaria que chegaria a 2018 com o PT comprometido por associação com os crônicos predadores da economia popular. A fúria persecutória da Lava Jato, conseguindo encarcerar sem provas um grande líder popular, propiciou a armadura emocional de que se vale grande parcela daqueles eleitores de 2002 para recusar audiência a argumentos críticos ao PT ou a Lula. A discordância política transformou-se em heresia religiosa.

Contudo, é incontroverso que as políticas sociais, aquelas que “colocaram o povo no orçamento”, e de que se orgulham os líderes partidários, surgiram sem afetar a margem de lucro do grande capital. Ao contrário, a expansão dos negócios industriais e bancários adquiriu brilhante dinamismo, à custa dos ganhos da exportação. O mundo absorvia commodities com voracidade pantagruélica e desse fluxo beneficiou-se o governo Lula “sem tocar no lado da receita do Estado”, como admitiu Fernando Haddad, questionado por Ciro Gomes em debate televisionado. Não era pilhéria quando Lula reagia às campanhas contra ele e seu partido com a indagação: por que os ricos não gostam de mim? Lula, o fantástico e implacável intuitivo, nunca captou o conceito de luta de classes, limitado pelo horizonte sindicalista que reduz os conflitos à negociação sobre reposição de perdas inflacionárias.

Cabem aplausos à distribuição da fartura ocasional entre os pobres e miseráveis, posto que, em circunstâncias similares, os governos mantinham a periferia fora da repartição. Mas a “receita que ficou intocável” se refere a políticas de efetiva distribuição de renda, alterando a contribuição proporcional do trabalho e do capital à acumulação econômica. Nem foram os pobres incluídos em programas institucionalizados, resistentes a ataques conservadores quando virasse a maré. Pois a maré virou e em dois anos desmontou-se a rede petista de proteção social.

A expedição de reconquista do poder haveria de considerar os novos parâmetros do conflito distributivo, produtores das desigualdades e da pobreza no século XXI, século da ambição capitalista de desqualificar a relevância do trabalho humano na reprodução da espécie. O PT de hoje perdeu-se na nostalgia de um tempo feliz absolutamente vulnerável, desconhece as razões estruturais do conflito atual, e propõe a mesma estratégia de governo: retomar o realejo do passado, com acenos a medidas que nem são ousadas. Pior: com a mesma fórmula de governança. De um lado, em sociedade com os velhos cupins da economia pública que, em pagamento, depuseram Dilma Rousseff; de outro, com promessa de apaziguamento e pedido de benevolência aos donos do capital. A campanha do PT, hoje, visita escritórios atapetados mais do que amassa barro em porta de fábrica.

Finalmente, os eleitores que promoviam as festas mais alegres e hospitaleiras das cidades, nos idos dos anos 2000, foram substituídos por leões de chácara emocionais, salivando contra alegados heréticos, exatamente como a direita, sem tirar nem por. De concessão em concessão, o PT transmitiu a seu eleitorado o dogma de que não se anda ao lado do povo sem a companhia de ladrões. Isso é falso, mas o novo eleitor petista segue o teólogo medieval Tertuliano: crê porque é absurdo.

O DRAMA CONSERVADOR (E PROGRESSISTA) DE SÃO PAULO

O provável desastre eleitoral de Geraldo Alkmin e Marina Silva surpreendeu os conservadores com incômoda opção: descarregar os votos em Ciro Gomes ou em Fernando Haddad. Se a presença de Jair Bolsonaro no segundo turno se confirmar, nem mesmo os cálculos de marqueteiros (de centro e de esquerda), especulando com a absorção dos votos de Álvaro Dias, João Amoedo, um naco de Marina Silva e, Deus seja louvado, peregrinos bolsonarianos desiludidos, prometem a presença de Geraldo Alkmin no segundo turno.

Impossível não é, bem como a conquista por Haddad do segundo lugar, embora chegando com atraso às fulminantes previsões dos clínicos em opinião pública. Mas, e se nem Jair Bolsonaro, cujas razões de êxito não são esclarecidas pelos xingamentos recebidos em abundância, e nem Fernando Haddad confirmarem as precipitadas loas à genialidade de Lula, como se comportarão os conservadores paulistas? Restrinjo-me aos paulistas porque nunca viveram, senão em 2014, eleição maldita para todos eles, a tensão de optar por um estrangeiro. Contudo, não obstante os fogos de artifício de todos os analistas de esquerda, a possibilidade de decisão no primeiro turno entre Haddad ou Ciro, contra Jair, não é assunto superado, como tenho lido em petistas e tucanos desesperados, para os quais Haddad aparentemente já realizou a mágica, arrebatando o Nordeste, Minas, Rio de Janeiro e São Paulo, por suposto, além do Acre, Rondônia e Amapá, redutos históricos do PSDB. Pode ser que ocorra, mas não ocorreu, e pode não ocorrer.

A página Poder360 trás resultados de pesquisa com três mil entrevistas em São Paulo e Minas Gerais, no período 9-11 de setembro, dia em que Fernando Haddad foi oficialmente anunciado candidato pelo PT à presidência da República. No Sudeste o anúncio não surpreendeu e a transfusão de votos de Lula a Haddad já começara com sua indicação a vice. De agosto a 10 de setembro, véspera da indicação, Haddad crescera de 4% a 9% das intenções de voto, segundo o Datafolha, pulo de cinco pontos percentuais. Entre 10 e 14 de setembro, já oficializado, o candidato do PT passou de 9 a 13% das intenções, salto de mais quatro pontos percentuais, ainda segundo o Datafolha. Depois de várias semanas sem ultrapassar 2% das intenções de voto, o enorme avanço de nove pontos percentuais entre agosto e setembro identifica o processo em curso de transfusão de votos de Lula para Haddad.

Foi no contexto da transfusão já em curso, e em estados nos quais o desconhecimento sobre Fernando Haddad é mínimo, que a pesquisa do Poder360 informa que, em São Paulo, Haddad aparecia com 10% de intenções contra 9% de Ciro, enquanto em Minas Gerais Ciro alcançava 14% das declarações de intenção contra 10% em Haddad. Na pesquisa Datafolha, era Ciro que aparecia com cerca de quatro pontos percentuais acima de Haddad, no Sudeste, No que estão chamando a batalha do Nordeste, região topográfica que, para a crônica paulista, inclui o Norte e o Centro-Oeste, onde o desconhecimento de Haddad pode ser maior, as próximas pesquisas contribuirão para a angústia dos tucanos. À medida que cresce a rejeição à Haddad simultaneamente à difusão de seu nome, a disputa com Ciro, na região, poderá depender do saldo simpatia versus repulsa, aspecto provavelmente de pouca relevância nas votações presidenciais anteriores do PT. Mas agora não se trata de Lula contra Serra ou Alkmin, nem está aferida a consequência eleitoral de Fernando Haddad se apresentar por aí afora como Lula.

Aí é que os conservadores, sobretudo paulistas, pisarão em ovos: Ciro, estrangeiro, ou Haddad, petista, mas, apesar de tudo, nativo. Os cenários elaborados pelos clínicos da opinião pública, traduzindo resultados da pesquisa Datafolha (14/9), me parecem afobados. Ali, o que surge como certa, hoje, é a queda de Marina Silva, mais nada, nem mesmo a consagração antecipada de Jair Bolsonaro.

FACE A FACE COM O ELEITOR

O golpe de 2016 impediu Dilma Rousseff e expulsou as forças populares do circuito do poder. Fiz esse diagnóstico em Democracia Impedida, publicado em 2017. Desde então o tabuleiro foi sacudido e nenhuma das pedras conquistou posição invulnerável.

A fórmula conservadora sustenta que é preciso mudar alguma coisa para que tudo permaneça como está. Minha fórmula para identificar os progressistas liberais é a de que, para eles, “tudo precisa continuar como está para algo mudar”. Parece a mesma, mas na fórmula dos conservadores são eles que dizem o quê e como mudar; na dos liberais progressistas, são estes que decidem o que continuará como está. Raramente uma peça coadjuvante interfere no conchavo entre conservadores e liberais progressistas. Quando surge, é ela a peça de efetiva oposição às regras estruturais, mais do que à simples competição na margem.

Os conservadores contam com três participantes no jogo: Jair Bolsonaro, Marina Silva e Geraldo Alkmin. O destemperado Bolsonaro foi contido pela didática de Paulo Guedes e só os rudes acreditam que vá distribuir armamentos ou castrar homossexuais. O conservadorismo de Guedes é extremista de outro modo: propõe substituir o que está aí em sentido ainda mais devastador para a economia e soberania populares, mantendo a essência imutável.

Marina Silva dispõe-se a defender o status quo promovendo reformas selecionadas, desde que a preservação e as reformas incluam o critério da sustentabilidade. A arbitrariedade do critério só é inferior à da graça da intimidade com a vontade divina, monopólio dos pós-graduandos em teologia. À parte a indignação contra escandalosas iniquidades da ordem, Marina investe na permanência dela.

Geraldo Alkmin é o conservador clássico. Polido com os grupos de interesse, não hesita em tornar-se bolsonariano se a exacerbação das demandas populares lhe parecerem ameaçadoras. Basta lembrar o início do vandalismo policial em junho de 2013. Talvez seja desafiado por um Collor retardatário, João Amoedo, do Partido Novo.

O liberalismo progressista – deixar tudo como está e alterar o possível – resultou da metamorfose do Partido dos Trabalhadores ao chegar ao poder e topar com a dura oposição dos conservadores. Os defensores da ordem não seguem regras contratuais, como ocorre nos acordos coletivos de trabalho e acertos de convivência são inevitáveis. Acertos cujos termos dependem mais da força social do que dos números eleitorais.

Lula obteve mudanças nas margens do sistema, embora vitais para os beneficiados, mantendo intacta a estrutura de extração de mais valor nas indústrias e nas transações bancárias. Foi o melhor acordo fechado, suficiente para transformá-lo no mais amado governante brasileiro. Ainda assim, escapou por pouco de um golpe em 2005.

Dilma não escapou. Depois da crise internacional de 2008, e apesar de drástica redução de recursos, Dilma expandiu os programas sociais. O lance foi inaceitável pelo conservadorismo, temeroso de uma efetiva redistribuição de renda. Caiu e cairia, mesmo se mais competente na administração da crise, ao contrário das fantasias dos críticos de massa falida. Dilma caiu por romper o pacto firmado pelo hábil metalúrgico. Haddad é tentativa de reingresso na ordem, solidário à estrutura vigente, mas aliviando as populações marginais da ordem.

Onde se encontram as propostas de mudanças estruturais afetando as posições dos predadores da economia e da soberania nacionais? – Assistam aos debates.