Arquivos mensais: agosto 2018

OS DESCAMINHOS DE UM CANDIDATO

Acabei de assistir 42 minutos de entrevista de Ciro Gomes a Glenn Grenwald em vídeo da Intercept. Assertivo nas opiniões como dever ser e polido como de costume, também como de hábito mostrou ser o único candidato de real oposição as bases estruturais da democracia capitalista brasileira. Sem limitar-se às fáceis indignações contra a miséria, a ridícula renda per capita, a situação no campo e nas periferias das cidades, clichês de todos os postulantes, referiu-se sempre que possível ao que considera a fonte principal de que as mazelas mencionadas são consequências diretas ou indiretas: a forma selvagem como o capital se apropria de mais valor nas indústrias e no cartel do sistema bancário.

Referiu-se duas vezes ao Rio Janeiro: na primeira disse que o Rio de Janeiro era o epicentro da corrupção no Brasil, tendo como evidência os ladrões, presos, Eduardo Cunha e Sergio Cabral. Ora, esses são ladrões pés de chinelo, não obstante o absurdo do que roubaram pessoalmente. O epicentro da corrupção está nas relações de longa data entre os grandes conglomerados privados e autoridades públicas em sistemática extorsão de benefícios contra os interesses da economia e até da soberania nacional. Documentadas pelas rocambolescas investigações da Lava Jato, a quase totalidade desses conglomerados estão operacionalmente sediados em São Paulo e é deles que têm saído os grandes criminosos. Políticos paulistas não estão na cadeia pela miopia da Lava Jato, como é publico e notório. Ciro Gomes errou seriamente na localização do epicentro da corrupção no Brasil.

Na segunda referência denunciou que os eleitores do Rio de Janeiro só estão interessados na descriminalização do uso das drogas. Talvez por isso sua campanha esteja negligenciando o terceiro colégio eleitoral do País. O candidato tem todo o direito de desprezar o voto fluminense. Mas me permito indagar: na companhia de quem anda Ciro Gomes quando vem ao Rio de Janeiro? E posso assegurar que ele não sabe, não é com quem, mas de quem está falando.

NÚMEROS NÃO MENTEM

Os eleitores em busca de informações alternativas à imprensa tradicional terminam contaminados pela algazarra de blogues mistificadores. Nascidos para corrigir desvios profissionais dos jornalões, os blogueiros partidários copiam todos, aprendidos em seus tempos de William Bonner: omitem dados, deturpam acontecimentos, divulgam falsidades e, sobretudo, não deixam ninguém contrariá-los. Até os debates são forjados: a própria turma e convidados bem escolhidos promovem a farsa de estarem todos de acordo.

A corrida eleitoral é a pauta para difusão de patranhas. Os números servidos aos leitores, resultado de cálculos aberrantes sobre dados torturados, falsificam o andamento real da competição. Embora sujeita a mudanças, é possível demonstrar que a atual intenção do eleitorado difere largamente do que jornalistas profissionalmente engajados transmitem a crédulos leitores.

É quase certo que Lula não será candidato. De acordo com declarada estratégia do PT, a manutenção de seu nome tem por objetivo a transferência de seus eleitores para o sucessor, Fernando Haddad. Para tanto, o ânimo petista é ativado por números de Lula, soma de sua votação histórica e acréscimos compensando as injustiças sofridas. Mas quando se limitam àqueles que serão candidatos, os números da última pesquisa do IBOPE, em meados de agosto, revelam um quadro não tão claramente favorável a tais ambições.

As intenções de voto, computadas por estado, indicam que os três primeiros lugares são ocupados, na ordem, por Bolsonaro, Marina e Ciro. Exceções ocorrem na Bahia, Maranhão, Pernambuco, Pará, Sergipe, Amapá e Alagoas, nos quais Marina aparece à frente dos outros dois; nos estados do Ceará e Piauí, em que Ciro assume a dianteira, e no solitário Paraná, com Álvaro Dias à frente dos outros três.

O segundo grupo pertence a Geraldo Alckmin, ou vice-versa, virgem sequer de um único primeiro lugar. Pouco provável que continue assim, mas o tempo encurta, acacianamente, a cada dia, e sua plataforma de lançamento só contabiliza um segundo lugar em São Paulo e Mato Grosso, além de um empate em quarto lugar com Ciro, no Paraná. Em todas as demais unidades da federação ele monopoliza o quarto lugar.

Haddad, estrela da vez, obtém no Piauí sua melhor marca: 6% das intenções de voto. Conquista 5% na Bahia e em São Paulo, e 4% em cinco estados: Rio de Janeiro, Paraíba, Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Sul. No Distrito Federal e nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Sergipe e Santa Catarina, Haddad não ultrapassa 3% das intenções de voto, enquanto em outros nove estados recebe não mais do que 2%: Paraná, Acre, Espírito Santo, Tocantins, Goiás, Rio Grande do Norte, Amapá, Ceará e Alagoas. Roraima e Amazonas lhe concederam 1% das preferências de voto.

Nesta pesquisa o IBOPE não forneceu os resultados de Minas Gerais, mas julgo válido concluir que Geraldo Alckmin necessita de um sobre esforço para alcançar um dos dois primeiros lugares. A distância que o separa do terceiro lugar de Ciro Gomes não é excessiva em alguns estados. Ocorre não haver o que impeça Ciro Gomes alcançar o segundo lugar, hoje com Marina, pois as distâncias entre os dois também não são insuperáveis.

O desafio que defina, talvez, a Presidência, consiste em descobrir a quem pertencem, de fato, os votos prometidos a Jair Bolsonaro. E se, contra toda lógica elementar, sejam mesmo dele esses votos encapuzados, azedos, noturnos?

Por fim, fica mapeado o tamanho da transferência das intenções de votos em Lula para efetiva votação em Haddad. Se o comando petista dispõe de informações estimulando o otimismo agressivo de seus militantes, essas não aparecem nos blogues, ocupados com fantasias embriagantes.

Para mim, esses números ainda não fazem sentido e muita água está por correr. Mas não pelos canais da internet.

CARTAS NA MESA

A euforia petista facilita demarcar divergências em relação a outras vertentes progressistas. Não é em momento de depressão ou de reduzido prestígio social do PT, mas quando dirigentes e militantes antecipam possível vitória no primeiro turno de Lula/Haddad, que faço um descarrego pessoal.

O vício de origem do processo que encarcerou o candidato Lula/Haddad não basta para cobranças de adesão a qualquer decisão emanada da direção do PT ou do próprio Lula. Esse é um preço similar às imposições de monopólio natural, supostamente implícito na condição do vitimado. Mas a injustiça não garante soberania indisputada a injustiçados. A coação é um preço aberrante, tratando-se, na verdade, de um assalto de Lula e apóstolos contra os insubmissos à jurisdição monárquica de algum predestinado. Seria a contrapartida civil dos gênios iluminados do Supremo Tribunal Federal. Rejeito a ambos.

O político Lula, vítima da notória e tácita conspirata do Judiciário, é o mesmo Lula que persegue de maneira implacável como um mouro, togado honoris causa, disposto a cobrir elevadas apostas, sacrificando quadros de seu partido, promovendo acordos clandestinos com PP e PR  para destruir oportunidades ao surgimento de outras lideranças populares.

Lula, pessoalmente, foi tenaz na urdidura do isolamento de Ciro Gomes, e mostrou-se hospitaleiro um tanto inescrupuloso a figuras e partidos que depuseram Dilma Rousseff. A versão dos fanáticos é a de que os ladrões e golpistas se arrependeram e Lula os perdoou. Mas não por generosidade dos novos centuriões. A prioridade de Lula e do PT nacional, que é o apelido do PT paulista, era e é a destruição da candidatura Ciro Gomes (ora, um cearense!). Para haver novo candidato paulista era indispensável que só houvesse rebotalho fora do PT paulista. Não é, obviamente, o caso de Ciro Gomes.

Eleitores de boa fé acreditaram que a exigência da cabeça de chapa era anseio partidário, sem qualquer explicação para a sacralidade de tal mandamento. Durante toda a embromação para a escolha do candidato “Lula”, da qual um esperto baiano ficou longe, a questão real sempre foi limitar a escolha da embuçada de Lula aos quadros do PT paulista. Fernando Haddad, claro. Lula é nordestino de nascimento e político paulista por conversão, inseminado pelo preconceito contra Getúlio Vargas, do qual nunca se desfez, e orgulhoso da predominância da indústria e dos bancos paulistas, com os quais se senta e se sente à vontade para negociar.

Há um aspecto inédito do fenômeno Lula: a capacidade de transformar homens e mulheres de reputação e história em meninos e meninas de recados, transformação aceita como promoção a estafeta: “o Lula mandou dizer…”. Aos sólidos opositores ao golpe, que não trocam a dignidade pelo poder, enrubesce testemunhar a subserviência e abdicação da autonomia de profissionais competentes, antes empenhados em formulações originais sobre o País. Pior: compactuam conscientemente com a mais intolerante máquina de intimidação e de difamação dos que se recusam ao beija-mão de chalaças; propõem e promovem censura nos blogues, outrora democráticos, e em todos os meios de comunicação, ocasionalmente infiltrados. São meganhas mentirosos, como os da ditadura militar, omitindo, desmoralizando, coagindo e, sem o saber, morrendo com Lula. Nunca mais terão direito a opinião pessoal.

Lula sabe que agoniza politicamente, aconteça tudo ou aconteça nada em outubro de 2018. E independe do Judiciário. Lula agoniza porque todos os grandes líderes terminam superados pela irreversível passagem do tempo. Talvez a revolta contra o fim inevitável se encontre na origem da obsessão instalada em sua nova concepção de mundo, expressa em obsoleto programa de governo. Lula não está à altura de Lula.

 O programa do PT é caduco e, em certos aspectos, tão reacionário quanto o do PSDB, na lengalenga de quem vai pagar mais imposto, mantido o equilíbrio fiscal, por suposto, na repetição de programas sociais altamente louváveis, mas indefesos, como se viu, sem reflexo institucional protetor. Acabar com a miséria exige bem mais do que aumentar conjunturalmente a renda dos pobres.  Os intelectuais que o acompanham, sobretudo os subservientes do jornalismo alternativo, ignoram a formidável extensão do drama do Brasil, que ingressa no circuito do ocaso da democracia representativa sem tê-la instituído integralmente, e exposto aos estertores da revolução industrial, que não completou. Profundamente desamparado diante da perspectiva de se perpetuar como copeiro das nações produtoras de tecnologia pós- revolução digital, o Brasil é um ente coagido por negociatas, ameaças, ações e omissões predatórias, a espremer-se entre um caudilho que mudou de lado e espumantes nulidades em rede.

As cartas, porém, não foram todas jogadas.

BALANCETE

Em matéria de estratégia, a do PCdoB foi a de maior êxito. Ameaçado pela nova legislação de perder privilégios parlamentares, sem assento em comissões, mesas diretoras, fundo partidário e tempo de televisão, as eleições proporcionais são o objetivo primordial do partido. Associando-se a chapas fortes, contará com votos dos partidos das coalizões para eleger seus candidatos. A apresentação de Manuela como candidata a presidente foi audaciosa. Destinada a ser absorvida, a candidatura ficou à beira do precipício com a escolha de Katia Abreu por Ciro Gomes. Se Lula continuasse a recusá-la o PCdoB teria que enfrentar sozinho a competição presidencial, provavelmente não tendo votos para atender à exigência da lei eleitoral para a representação no parlamento. Estratégia bem traçada e bem executada.

Ciro Gomes é o único capaz de promover duas campanhas simultâneas. Katia Abreu dispõe de personalidade e capacidade de articulação que a permitem fazer campanha em um lugar enquanto Ciro circula em outra praça. Marina Silva ou Geraldo Alkmin não contam com tal recurso. No PT, já com o problema de informar a seu eleitorado que o candidato não é o Haddad, mas Lula, exceto se Lula for impugnado, Manuela não tem como se apresentar senão junto com Haddad, deixando claro que, se Lula for candidato, o vice não será o Haddad, ali presente, mas ela, que, por ora, não é nada. Um pequeno transtorno será explicar, caso perguntem, o que acontecerá com Haddad, se Lula for candidato: voltará a dar aulas no INSPER, colégio de radicais antipetistas, ou será confirmado, não como o mensageiro de Lula, mas como vice mesmo? Aí o destino incerto será da Manuela. Nada disso tem importância para o eleitor, segundo os estrategistas do PT e seus porta-vozes na imprensa alternativa, porque eleger Lula ou seu preposto é o que importa. Mais nada.

Quanto a programas, Marina Silva, não obstante assessores de peso, não abre mão de confundir o eleitor com seu estilo baixo austral de Augusto dos Anjos. As votações que tem obtido são o maior mistério do comportamento eleitoral brasileiro. Se ela afirmar que, com os erros e roubalheiras do passado recente, pior do que está não pode ficar, será considerada uma declaração socrática – tipo, eu só sei que nada sei -, embora um plágio de Tiririca, cuja votação é igualmente incompreensível. Alkmin dispensa apresentar programas porque já é conhecido há vinte anos. O cartapácio do PT rebobina programas conhecidos, acrescenta velhuscas bandeiras como um imposto sobre fortunas e ignora por completo o complexo desafio da revolução industrial ponto 4 sem fazer ideia do problema de emprego que o País terá pela frente. Refere-se à intervenção no mercado da informação, sem maiores esclarecimentos, e serve a fantasia de reforma política junto com a promessa de uma Assembleia Nacional Constituinte. Mas a segunda, se cumprida, não promoveria a primeira? Talvez não, pois, segundo os pensadores petistas, os deputados não alteram as condições que lhes proporcionaram o mandato. Bem, fora a grosseira análise de como funciona um parlamento, onde pensam buscar candidatos e eleitores distintos dos atuais? Quanto a isso o programa oferece o conhecido escapismo de que tudo será feito depois de ampla consulta à população. Bem, não importa porque o projeto real é eleger Lula ou quem ele mandar.

O programa de Ciro Gomes tenta apresentar diagnósticos específicos de vários problemas materiais e esboça linhas de ação para minorá-los. Há substância para discussões relevantes, inclusive sua tese de que o presidencialismo é a fonte de todos os males e o parlamentarismo um primor de engenharia: se não está funcionando, o grupo deixa o governo e outra eleição, ou indicação do próprio parlamento, escolhe o grupo substituto. Não haveria o problema agônico da sucessão que precisa esperar quatro, cinco ou seis anos para solucionar um vexame como o de Michel Temer, por exemplo.

Ocorre que a Alemanha dos anos 30 era parlamentarista, na companhia de Portugal salazarista e outros da mesma cepa. Ciro está equivocado quanto à história das formas políticas. Em compensação, tem revelado conhecimento e preocupação com o ingresso do Brasil na ordem robótica, com a perspectiva de se tornar um dos países cronicamente proletários no mundo da automação. Mas todas as entrevistas são desperdiçadas com debates sobre o temperamento do candidato, suas relações com o PT e Patrícia Pilar. Ou seja, a imprensa convencional também não quer saber do programa de ninguém: já tem seu candidato tanto quanto parte considerável da imprensa alternativa. Pensamento único em todos os canais de comunicação.