Arquivos mensais: julho 2018

A ÓPERA TRISTE

A declaração do Partido dos Trabalhadores de que o candidato indicado será a sombra de Lula é uma declaração indecente. A naturalização da figura de “poste de Lula” como legítimo representante da população é acintosa. Trata-se de convite explícito ao eleitorado a que cooneste uma farsa, descrita com requinte. Segundo membros da Executiva do PT, o indicado terá que ser leal e limitar-se a ser o intermediário da palavra de Lula. Na campanha, dirá que todas as suas decisões serão decisões de Lula. Ora, jamais um candidato das forças populares teve a ousadia de se apresentar como boneco falante. As declarações, transcritas pelo jornalista Luiz Nassif, não foram contestadas.

Dilma Rousseff não foi porta voz de uma pessoa, mas de um projeto de nação. Talvez por isso leia-se em documentos pró-petistas, além de proclamado abertamente em conversas, ter sido ela a responsável pelo desastre do impedimento. Acusam-na de recusar ceder a candidatura, em 2014, ao imputado desejo de Lula de voltar ao poder. Na cegueira do descontrole, a oligarquia do PT não percebe a extensão do insulto com que recompensam a dedicação às causas populares de pessoas íntegras, de respeitabilidade independente de partidos, cujos nomes circulam como possíveis indicações de Lula. Na visão da Executiva do Partido dos Trabalhadores, seriam simplórios candidatos a moços de recado.

Causa amargor reconhecer a vitória dos reacionários curitibanos na tarefa de reduzir a histórica figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à de um obsessivo costureiro de futricas eleitoreiras e justiceiro de medíocres ressentimentos. Só um vírus de paranoia, inoculado pelas estrambóticas sentenças de Sergio Moro, explica o sacrifício de “leais” quadros partidários, como requer a Executiva, buscando, não a vitória, mas a derrota de supostos adversários. Por isso, mas não só, causa embaraço assistir Lula, sempre incorporado como um brasileiro comum, ignorado pelo poder elitista, anunciar em transe a própria transmutação em “ideia”, diante de enorme multidão, ali em apoio a um dos seus, pessoa de carne e osso, mortal como todos nós.

Mas Lula não é uma ideia, Lula é um brasileiro preso injustamente, vítima de notória perseguição política, e ao qual se castrou o direito de participar da vida pública. Razões mais do que suficientes para receber solidariedade ativa, não submissa, dos democratas socialistas e liberais. Restaurar a isonomia política no país, todavia, requer a derrota do continuísmo golpista nas eleições de outubro. Negligenciar a necessária vitória eleitoral dos democratas não equivale à celebração de uma derrota por ser moralmente reconfortante à facção islâmica do petismo. O custo real da derrota será exorbitante, inclusive para os moralmente extasiados.

A circunstancial ingratidão brasileira com um de seus maiores nomes não lhe acrescenta direitos além daqueles, cotidianamente feridos, de que dispõem brasileiros e eleitores comuns. Ser o arquiteto de uma estratégia, conforme vendida ao eleitorado, mas acobertando uma ópera, foi surpreendente; tê-la proposta ao eleitorado por “postes” partidários, uma ignomínia; tratar os militantes de primeira linha como abúlicos, um erro brutal. Lula comprometeu seriamente o descortino de estadista que possuiu enquanto um brasileiro homem comum. Vença ou perca a eleição, através de um mamulengo, Lula, o grande, sucumbirá ao nefasto projeto de Curitiba: não será mais um brasileiro comum; apenas um político comum.

ÚLTIMAS PALAVRAS

Segundo resultados do Paraná Pesquisas registrados no TSE (SP-05341/2018 e RJ-o6304/2018), obtidos, respectivamente nos dias 3 e 14 de julho, Jair Bolsonaro obteve 26,6% dos votos contra 25,5% de Lula, no Rio de Janeiro. Empate técnico. Em São Paulo, Bolsonaro aparece com superioridade estatística de 24,3% contra 21% de Lula. Ainda não chegou o momento em que pesquisas eleitorais façam sentido para mim. Publico esses dados para ilustração dos dirigentes do Partido Paulista dos Trabalhadores.

LAVA JATO ELEITORAL

O momento sucessório expõe a vulnerabilidade do regime presidencialista às aventuras golpistas. A democracia requer o reconhecimento formal da vitória de um candidato pelo adversário derrotado. O formalismo não é apenas protocolar, mas indicador de que as instituições continuarão a funcionar com a plena cooperação (mesmo que na oposição) do lado perdedor. Talvez o maior número de crises com desenlace antidemocrático na América do Sul tenha por origem a recusa do derrotado a reconhecer a legitimidade do pleito. Não se trata de moléstia tropical, contudo. Entre outros não tão frequentes exemplos em países considerados estáveis, agora mesmo Donald Trump não se cansou de anunciar recusa prévia a outro resultado que não o de sua vitória. Possivelmente um blefe, e improvável que o estamento político norte-americano o acompanhasse se não o fosse. Mas os minutos entre o anúncio do vencedor e o reconhecimento público da derrota são os minutos em que a democracia fica em suspense; mesmo nos Estados Unidos.

Houve no Brasil minutos de alta tensão depois da vitória de Juscelino Kubitschek, com subsequentes e frustradas tentativas de invalidar o resultado por militares inconformados. Depois de mais de meio século, atravessamos a turbulência gerada pela bem sucedida trama de Aécio Neves, imediatamente transformada em sólido bloco político-midiático, desdobrada em impedimento da presidente Dilma Rousseff. No instante atual, não só a perspectiva da própria eleição desagrada a muitas figuras do atual condomínio como a condução do processo pré-eleitoral se faz por mal traçadas linhas, com cerceamento de políticos por razões altamente controversas e sussurros de que certos resultados seriam inaceitáveis. O momento de confusão de identidade envolvendo o Judiciário, especialmente as togas maculadas do Supremo Tribunal Federal, adiciona balbúrdia às suspeitas sobre a solidez das instituições.

Supondo ultrapassado sem estilhaços o desafio eleitoral, aí será a vez da prova dos nove da Lava Jato. Nenhum democrata aceita a hipótese de que as investigações sejam interrompidas. Ao contrário, ao longo de toda essa escavação espera-se o aparecimento de formas constitucionais de manter o Estado brasileiro, em todos os seus níveis, submetido a vigilância preventiva e reparadora de atentados à economia nacional. Por sua própria natureza, a demorada condução desse processo não pode permanecer em mãos de personagens claramente preconceituosos e seletivos, arbitrários e desafiadores dos cânones de normalidade da execução judiciária. Resultado e alimento da volubilidade e complacência do Supremo Tribunal Federal, o aparato envolvido nos absurdos cometidos por instâncias do judiciário, por agentes do Ministério Público e da Polícia Federal, há que haver imediatamente pós-eleição uma reformulação a jato do pessoal e das regras de conduta da investigação. Ou isso ou o novo presidente, por mais que privilegiado nas urnas, não governará com autoridade e autonomia.

Os partidos interessados deveriam mostrar ao eleitorado que o problema das eleições inclui avaliação sobre que candidatos teriam disposição e convicção democrática para colocar a Lava Jato a serviço do tesouro da nação, e não aos interesses de uma coalizão de conservadores.

A SEDUÇÃO DA TIRANIA

A eleição presidencial de 2018 esteve ganha pela oposição enquanto a única referência dos conservadores era a associação com o monumental desastre de Michel Temer. Hoje, “Michel Temer” virou espantalho a ser inflado e agitado durante a campanha eleitoral. Mas não está claro se o eleitorado votará contra os conservadores por sua conexão ao golpe parlamentar ou se os favorecerá na renovada expectativa de derrotar um candidato, imbatível há quatro disputas, sustentado nuclearmente por PT, PSB, PDT e PC do B. Hoje, dilacerou-se o conjunto quatro vezes vencedor: o Partido dos Trabalhadores, hegemônico, não contará com os votos unânimes dos partidos que sempre o apoiaram e nem mesmo com a totalidade de seu próprio eleitorado. Hoje, a nuvem da política mudou drasticamente de silhueta.

Depois de sucessivas derrotas jurídicas e tímida resposta dos movimentos nas ruas, o PT iniciou o afastamento da realidade com a campanha autodestrutiva de que uma eleição sem Lula seria fraude. Não registrou a indiferença do aparato judiciário e policial às ralas manifestações de adesão nas grandes cidades, adotando o contraditório movimento de negar legitimidade às decisões da justiça e a ela recorrer, confiando no nobre critério de neutralidade dos operadores. Parecia agir na presunção de que ou as críticas contra o judiciário convinha como propaganda ou de que conseguiria persuadi-lo pela força dos argumentos.

As acusações da esquerda contra o Judiciário, contudo, têm granítica procedência. Infrações e arbitrariedades jurídicas fazem parte do consenso que inclui a avassaladora maioria dos partidos políticos, o eficaz mecanismo do sistema globo de informação para iludir a opinião pública, todos os órgãos de representação do capital e, por fim, a maioria do Judiciário, extensamente comprometido com aberrações jurídicas desde o julgamento da Ação Penal 470. E a cláusula pétrea do golpismo consiste em impedir o retorno da centro-esquerda ao circuito de poder político. Não se trata, aqui, de frívolo recurso de retórica partidária, mas refletido juízo sobre a dissimulada conspiração que o caricato impedimento de Dilma Rousseff desnudou.

Depois de reconhecido o vazio das ameaças de que o MST, substituindo a já clara impotência da CUT, ocuparia cidades e praças contra as arbitrariedades de Sergio Moro, a discussão sobre eventual resistência à ordem de prisão elevou os dirigentes petistas a superior patamar de desvario. Em seguida ao que jamais aconteceria, a prisão de Lula, o roteiro delirante aproveitou a solidariedade à indiscutível vítima de perseguição política, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, convertendo-a, por intimidação, em inaceitável culto à personalidade de um irreconhecível candidato presidencial Lula.

Hoje, há um Lula indulgente com o totalitarismo dos diretores do PT, da CUT, do MST, transtornado em fanatismo em muitos militantes, e candidato que mantém refém grande parte das forças populares. Mais preocupado em derrotar competidores em seu próprio lado do que impedir a vitória da reação. Todos os quadros do PT e partidos próximos, além de personalidades historicamente admiradoras do extraordinário ex-metalúrgico, têm sido apresentados a um enigmático Lula, messiânico e expropriador da vontade autônoma das forças populares. Antes, o destino de Lula se associara ao destino dos pobres; hoje, Lula pretende que o destino das massas se associe ao seu, aprisionado a um combate mesquinho contra um personagem nanico – o juiz Sergio Moro. Os democratas esperam que o preço não seja a vitória da reação, com o encarceramento real da população pobre a seu destino miserável.