Arquivos mensais: maio 2018

A DIREITA DA ESQUERDA

Se Jair Bolsonaro é uma aberração política, como acredito, então dificilmente representa ou virá a representar os conservadores. Nem mesmo os direitistas radicais acompanhariam inteiramente o breviário bolsonariano, catálogo de universal excomunhão de pecados e sem reconhecimento de outra virtude que a de carcereiros e carrascos. Nenhuma indicação sobre a cidade virginal a construir. Entendo seus inabaláveis 19 a 20% das intenções de voto como expressão de um eleitorado lumpen, constituído basicamente por recrutados a duas categorias de cidadãos: motoristas de taxi e militares na reserva. A estes grupos com identidade própria se agrega parte dos crônicos trabalhadores precarizados, não os atuais desempregados com histórico associativo. São os ajudantes de obras em constante rodízio de local de trabalho; os ambulantes, pagando dízimos a cafetões civis e policiais; os biscateiros, os ressentidos e traumatizados pela vida. Nem sempre aderem a candidatos mercuriais, mas quando votam normalmente, o fazem por motivos estranhos. Com frequência atribuem ao escolhido opiniões que estes jamais sustentaram. Eleitores lumpen são, caracteristicamente, mono temáticos, opacos à leitura ou audição de nada além do que lhes desperte a fúria redentora. Eles são Bolsonaro.

Sou cético a respeito do futuro eleitoral de Jair Bolsonaro. Os conservadores estão presos à racionalidade da produção mercantil, guardiães das algemas que constrangem o Estado, ciosos de que os timoneiros cumpram sem sobressaltos o roteiro consagrado na legislação sobre a propriedade. O trauma Jânio Quadros já caía no esquecimento quando Fernando Collor fez o obséquio de beliscar a consciência de classe. Creio que liberais e conservadores votariam até em Lula, se candidato fosse, em confronto decisivo com tamanha e trovejante aberração uniformizada.

Por isso, liberais, conservadores e convictos direitistas ainda não têm candidato. Não é bom. Que eu me recorde, a representação do capital nunca perdeu por wo, por recusa ao combate. Bom lembrar que a direita detém o monopólio de um recurso diabólico: o golpe de Estado. Golpes de Estado contemporâneos dispensam a iniciativa armada, usufruindo do brilhantismo de seus advogados, virtuosos em escrever em prosa constitucional a mais deslavada pornografia política. O estoque de artifícios é elástico, sedutores o suficiente para persuadir os profissionais da força que conquistamos o máximo de harmonia possível, dentro da lei. Mas eis que lá, em hora desprevenida, um togado poliglota dispara uma citação de Leibniz e, pronto, caímos em democracia ainda melhor, aquela em que, em nossa cegueira, seremos governados pela vanguarda iluminada dos sem voto.

Melhor aparecer um candidato conservador legítimo, mas tolerante da democracia, com legitimidade para reconhecer e aceitar eventual derrota.

POLÍTICOS LAICOS

Na rota entre BR-2002 e BR-2018 operou-se a transformação de um país em que todos ganhavam em outro no qual todos perdem. Em 2002, após três tentativas, Lula conseguiu persuadir o eleitorado de que os planos econômicos fracassariam enquanto não houvesse significativa promoção social dos pobres e muito pobres. A desigualdade extrema permitiu que a primeira das várias medidas com modesto gasto público, o programa bolsa-família, proporcionasse sensível aumento na renda familiar.  O impacto no consumo aliviou parte da capacidade ociosa da indústria voltada para consumo de massa sem massa para consumir. Criticar o modelo como consumista é o mesmo que se irritar com o guarda-chuva depois do temporal.  Ademais, o consumismo produziu tremores na estratificação social, origem do ódio de parcela da classe média a Lula, responsável pelo forçado convívio com a antiga laia de miseráveis.

A rede de proteção tecida durante os mandatos de Lula exigia reformulações institucionais, resistentes a espasmos de crise econômica e às iniciativas demolidoras de conservadores homicidas. Essa cautela não foi observada por Lula e nem por Dilma. Mas à chegada impetuosa da crise internacional, Lula, em memorável discurso de 2008, recomendou à população continuar comprando, consumindo. Foi um de seus grandes momentos, adiando os efeitos da catástrofe global. A Dilma caberia preparar o país para transição a uma democracia de massa, tecnologicamente atualizada. Nesse trecho deu-se o assalto ao mandato da presidente.

Não participo do coral que atribui a Dilma Rousseff inteira responsabilidade pelo desastre econômico e político sucedido. À época, programas de aceleração do crescimento geravam plataformas para importante salto na economia. Entre outros erros de cálculo, porém, o recurso a desonerações fiscais supunha vigorosa contrapartida do empresariado, sem instrumentos que a conferissem e avaliassem. Como notório, o empresariado adorou o aumento na margem de lucros e só empresou, mesmo, o golpe parlamentar de 2016.

Depois do atual furacão reacionário, completou-se a inversão da prioridade de 2002. Hoje, é indispensável criterioso planejamento que permita o combate eficaz à miséria. Sem severa higiene institucional, o país verá consolidar-se um hiato intransponível em relação às economias tecnologicamente revolucionadas do século XXI. Aproveitar oportunidades nessa corrida impõe admitir-se que nenhum dos grandes partidos brasileiros, isoladamente, dispõe de conhecimento e material humano para tanto. Sem roteiro programático mais ou menos consensual entre os partidos, não haverá futuro promissor para o país, condenado à mediocridade e à indistinção no enorme bloco das nações colonizadas sem a necessidade de ocupação militar. Assunto para políticos laicos, sem pretensão à canonização em vida.

QUEM SE IMPORTA COM LULA?

A direita festejou a retumbante derrota do PT nas eleições municipais de 2016. À esquerda, volta e meia vítima de lavagem cerebral, líderes e porta vozes autorizados ou não deram início a desencontrada autocrítica. Como de hábito, o que começa como autocrítica termina em busca de bodes expiatórios. A perseguição da Lava-Jato (inegável) e a covarde difamação de Dilma Rousseff, incompetente, segundo líderes do PT, explicavam os alegados desastrosos resultados eleitorais. Só que não foi bem assim. A fragilidade dos analistas do partido os torna presa regular do noticiário conservador, daí a frequente adoção de estratégias incoerentes, em luta diária contra as manchetes do Jornal Nacional e os editoriais da Folha de São Paulo. Neste particular, operam como inocentes úteis da direita.

Há uma associação bastante sólida entre número de candidatos apresentados pelos partidos e a probabilidade de vitórias: quanto maior o número de candidatos, maior a proporção de vitórias conquistadas. A associação não vale, obviamente, para partidos concorrendo com um ou dois candidatos, coligados a partidos grandes, e que, beneficiados pelo sistema proporcional adotado, obtêm 100% de aproveitamento.

Na disputa pelas prefeituras, em 2016, o Partido dos Trabalhadores perdeu algo mais do que 50% das cadeiras conquistadas em 2012. Este foi um dos resultados que levou a direita às gargalhadas e lideranças da esquerda a espargir cinzas pelas cabeças alheias. Em grande parte, contudo, a perda se explica por correspondente fuga à competição. Em 2016, o PT registrou 1004 candidatos prefeitos contra os 1799 registrados em 2012, ou seja, uma redução de 44% na lista de concorrentes. A sangria na mobilização de competidores, esta sim, teve impacto desastroso no desempenho do partido.

O mesmo ocorreu na disputa pelas vereanças. Em 2016, o Partido dos Trabalhadores concorreu com uma absurda redução de 45% no número de candidatos, em comparação com 2012. Não deu outra: conseguiu, em 2016, menos 46% de vitórias das conquistadas em 2012. Não há comprovação de que o eleitorado petista tenha rejeitado o partido. O PT perdeu o que sua liderança pediu para perder.

Ser pautado pela direita significa ou ficar intimidado por ela – o que ocorreu em 2016 – ou tomar decisões embirradas com a propaganda midiática. Antes de se arriscar a resultados catastróficos em 2018, seria de toda conveniência que alguns exaltados ou compreensivelmente emocionados com a real perseguição ao partido e ao seu grande líder, fossem capazes de separar a solidariedade que não lhes tem faltado por todas as fatias do bolo à esquerda, da necessidade crucial de formular a estratégia com maior probabilidade de sucesso em outubro próximo. Essa decisão requer abertura negociada em torno de programas de governo. Os nomes surgirão naturalmente de um acordo de tal tipo.

Há uma reflexão à qual ninguém, no lado da esquerda, deveria fugir: é absolutamente certo que sem o apoio de Lula, uma vitória da centro-esquerda ficaria seriamente ameaçada; porém, dependendo do candidato, mesmo com o apoio de Lula, a vitória também será improvável. Dedicados petistas, fora dos dogmáticos discriminadores, não têm censura mental e podem admitir que, sem Lula é impossível ganhar, mas com Lula é possível perder. Em qualquer dos dois casos, a vítima maior será o próprio Lula, que está preso e, por enquanto, condenado. Os estrategistas do ou Lula ou nada continuarão soltos.

O DESTINO DE LULA

Preocupados com o destino pré-eleitoral de Lula, inflamadas porta-vozes do grande líder descuram-se do que com ele pode ocorrer depois das eleições. Com a tese kamikaze de ou Lula ou nada e a religiosa excomunhão dos que sugerem a possibilidade de o PT abrir mão da cabeça de chapa, hostilizam o eleitorado brizolista e os socialistas contrários a Joaquim Barbosa, ademais de enorme eleitorado de esquerda não automaticamente petista. Quem não se preocupa com isso é partido carona, partido que não tem voto. A sensata opinião de que, na impossibilidade da candidatura Lula, o PT conversaria com aliados históricos sem a preliminar de que a cabeça da chapa lhe pertença, vê-se acusada de traição e, para os mais exaltados, adesão à direita. A ideia de que lutar por justiça para Lula obriga a exigir que seja candidato e, consequentemente, presidente da República, só faz sentido na cabeça de conversos à política de caudilhos. Pode ter sucesso, mas, falhando, cresce a possibilidade da derrota de todos, não apenas dos fiéis petistas, com o abandono do poder legal à direita. O insucesso presidencial não impedirá a eleição de deputados progressistas Brasil a fora, deixando a conta, contudo, para o fantasma de Carlos Drummond: e agora Lula?

À falta de metralhadoras e de quem as queira operar, e a visível fragilidade das hostes em direto combate contra os operadores do judiciário, é surpreendente, não só a negligência, mas a estúpida desmoralização dos mecanismos eleitorais. Vencer as eleições presidenciais em outubro é o único, único, único, caminho legal para alterar, em segurança, as atuais posições políticas e jurídicas separando o complexo das esquerdas do aglomerado das direitas. Sem essa vitória, a idade das trevas se prolongará até o fim do mandato dos deputados progressistas eleitos na onda do “ou Lula ou nada”. Será o nada de Lula.

Prolongada omissão de Lula, em silencioso incentivo aos incendiários, arrisca suas próprias barbas, assistindo a intensificação das ofensas de petistas ao eleitorado progressista, mas não devoto. Por enquanto, Lula ainda pode escolher o caminho que não deseja seguir. Depois das eleições de outubro, o destino de Lula, em um ou em outro sentido, não dependerá mais de sua estrita vontade.