Arquivos mensais: julho 2016

O MARQUETEIRO E A DELAÇÃO OLÍMPICA

O senhor João Santana decifrou as regras curitibanas de delação premiada. Reconheceu manter conta bancária no exterior, na qual teria recebido pagamento por serviços prestados à campanha presidencial de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. Nas duas oportunidades estava ciente de cometer crime fiscal e de que os volumes pecuniários que aceitava pertenciam ao ilícito catalogado como “caixa 2”. Não consta em matérias jornalísticas se teria resistido às formas de pagamento – dinheiro não contabilizado oficialmente, depositado no exterior, em moeda estrangeira -, nem se buscou alternativa de trabalho em condições compatíveis com a legislação brasileira. Mas acrescentou que mentira no primeiro dia de sua prisão porque não queria destruir a imagem da presidente Dilma Rousseff. Justificou participar do acordo por não haver alternativa, pois de outro modo não teria condições de competir. Fica esclarecido que João Santana, e, segundo ele, todos os marqueteiros, foram obrigados a aceitar quantias astronômicas pelas ficções das campanhas, pressionados por tesoureiros ansiosos para distribuir milhões de dólares roubados às empresas estatais. Não está nos jornais, mas é de imaginar que a negociação dos contratos se iniciava com o senhor João Santana indagando a João Vaccari quanto ele, marqueteiro, deveria cobrar pelos serviços futuros. Vaccari, então, com empreiteiros, estimavam a soma a desviar das obras do governo, modalidade de arriscadíssimo esporte radical, ditando ao obediente senhor João Santana, sob a ameaça de perda de emprego, os valores em dólares a serem embolsados por ele, no exterior, como pagamento.

O Juiz, doutor Sergio Moro, ouviu e mandou lavrar a confissão, nada estranhando. O senhor João Santana saiu-se incomparavelmente melhor do que outros patuscos premiados. Está em Curitiba, aguardando a tornozeleira de praxe. Afinal, trata-se de um campeão de sordidez, vencendo com folgas a vilania dos demais ladrões.

Nada do narrado espanta. Apenas uma observação: em que delírio megalomaníaco vive o senhor João Santana para se acreditar capaz de alcançar a reputação de Dilma Rousseff?

A ÚLTIMA FLOR DO PÂNTANO OPOSICIONISTA

A esta altura está difícil saber se a direita imita a liderança da esquerda ou se esta aderiu ao estilo daquela. Virou moda a manipulação de informação, formação de panelinhas, discriminação, censura e difamação. A mídia tradicional tem tarimba e competência, faz passar gato por lebre mesmo onde não existam nem gato nem lebre. Já a esquerda é desastrada e tosca quando perde o rumo do nariz. A estranha patacoada de condicionar, em nome de quem não se sabe, apoio à recuperação do mandato de uma Dilma Rousseff comprometida a abdicar, se reempossada, continua a pipocar na opinião dos mais esquisitos personagens a propósito de coisa alguma. Podem chamar de plebiscito, é a velha sacada da direita de chamar golpe de revolução. Assim como extrair respostas embutidas em perguntas prontas é outra manobra tipo batedor de carteira de reportagens encomendadas. Aliás, não é de hoje que a velhacaria de assassinar caráter de dissidentes abandonou a fidelidade partidária e se vulgarizou como recurso vadio, vinte e quatro horas à disposição de qualquer um.

A real liberdade de imprensa, finalmente promovida pela internet, tudo aceita, sem filtrar páginas que reproduzem a imagem escarrada dos jornalões, com o contrapeso de uma linguagem rude. Não há novidade no que se lê, nem no que não se lê na internet, cópia dos diários impressos, que não surpreendem ninguém. Previsivelmente, grande parte das matérias dos jornalões divulga reportagens e editoriais contradizendo as bandeiras da esquerda. Vingança da dialética, a esquerda pautando a direita. Mas nem dela escapa a esquerda, com três quintos constitucionais dos blogues sobrevivendo por necrofilia, excomungando as opiniões da direita. Se os jornalões falirem haverá estrondosa mortandade entre os postes – é isso mesmo, postes, da esquerda.

Última flor do pântano, blogues especializados soltaram balões com a revolucionária proposta de apoiar um trêfego participante da salada golpista (aquela de 17 de abril) à presidência da Câmara dos Deputados. Alegadamente, um dardo letal contra Eduardo Cunha e o governo interino e usurpador de Michel Temer. O oportunismo próprio de amadores, quando não disfarça solerte manobra utilitária, ofende ao grande contingente que se vai consolidando na resistência à usurpação. Aconteça o que acontecer na decisão do Senado em agosto: se o processo de impedimento for derrotado, caberá campanha punitiva dos sabotadores da democracia. Basta de anistia a psicopatas, exploradores de pobres, mercadores do patrimônio nacional. Se consumado o impedimento, cumpre insistir na oposição ao governo, cuja ilegitimidade não compete a nenhuma decisão do Senado absolver. O restabelecimento da dignidade do voto não é matéria de decisão legislativa e o apoio ao governo deve ser implacavelmente coberto de vergonha. Basta de oposição sem pudor.