Arquivos mensais: junho 2016

A DIREITA PEDE IMPEDIMENTO; A ESQUERDA, ABDICAÇÃO. A QUEM APROVEITA?

Compram-se riscos de desfecho popularmente ruinoso quando o pessoal do setor de serviços, dispondo de meios de propaganda, parece capturar a liderança ideológica do setor secundário. Por razões estritamente de mercado de trabalho e de renda, variável em limites toleráveis, os radicais da palavra ousam apostas estratégicas, capazes que são de absorver eventuais custos do fracasso. A turma do trabalho pesado, contudo, expõe-se a custos absolutos, a saber, perda de cem por cento da renda. Há uma disparidade de custos, visível na frívola radicalidade dos repassadores de ideologia, e o cauteloso cálculo da liderança operária. O ímpeto da crônica intelectualizada alimenta-se com o sucesso de audiência, integrada por múltiplos de si próprios. Não há assembleias de analistas similares às grandes convocações sindicais. À falta de controle crítico das propostas de ação, os generais do radicalismo competem pelo aplauso inorgânico dos apaixonados, mas com renda garantida. A população da internet tem ralo compromisso com o destino das propostas, aplauso ou vaia. Nada se segue, como recompensa,  além de mais aplauso ou vaia.

Surpreendentes fórmulas para substituição do poder em exercício negligenciam o detalhe de que continua em exercício um poder que detém razoável capacidade bélica. No mínimo, por tempo suficiente para infligir custos irreparáveis a parte da tropa assalariada se esta, persuadida pela promessa de vitória consagradora, entregar-se a celebração antecipada. Pois a Central Única de Trabalhadores sucumbiu à pressão dos alquimistas institucionais, apoiando que Dilma Rousseff prometa o que não tem autoridade para entregar – convocar novas eleições presidenciais ou plebiscito, a moeda de troca é maleável – se o Senado restituir-lhe o mandato. Omite-se do conchavo informar quantos e quais seriam os senadores convertidos, quantos legisladores na Câmara dos Deputados, sem a qual o conchavo não funcionará, e, ainda, se não haverá pronunciamento do Supremo Tribunal Federal, ativado pelo PSDB, OAB, ou qualquer um dos agentes que se sinta espoliado.

No linguajar ideológico do século XX figurava a apostasia do “voluntarismo” quando alguma liderança escapava às “condições objetivas de luta”, tentando impor iniciativas sustentadas pelo desejo de que o sucesso estivesse ao alcance de uma greve ou de um artigo jornalístico. Ignorando a “correlação de forças”, os apressados substituíam a real distribuição de poder pela contabilidade subjetiva que, não sendo compartilhada pelos grandes números, padecia de imperdoável idealismo. Idealismo desastrado, risco atormentando os reformadores diante de escolhas urgentes. Não assim aos propagandistas da vitória-a-espera-de-um-grito, certos de que a intensidade do desejo consegue sujeitar o mundo a suas elucubrações.

Duradouras expressões de inconformismo com o governo interino de Michel Temer indicam disposição do público de aderir à demanda de retorno aos “quadros institucionais vigentes” de que falava, em 1955, o general Henrique Lott. Se, à época, cumpria garantir a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek, reivindica-se agora a restituição do mandato à presidente Dilma Rousseff, vitoriosa em 2014. O moto sincronizado de todas as manifestações tem sido “Fora Temer”, sem menção de remendos à Constituição contundida. Então, por que cargas d’água, contra a ilegal tomada do poder pelo PMDB, não basta o simples retorno de Dilma Rousseff à presidência? De onde surgiu a espaventosa ideia de novas eleições? E o que pensar do estranho enigma de exigir o retorno de Dilma Rousseff para que ela, então, convoque um plebiscito?

Mas, eis que a presidente Dilma Rousseff dispõe-se a apoiar novas eleições desde que recupere o mandato. Como assim? Se todos os movimentos pelas capitais afora recusam sua destituição do poder, a que vem abdicar em favor de novas eleições fora do cronograma previsto? Só com emenda constitucional, e quem irá convencer o Congresso, os tribunais, àqueles interesses que financiaram a campanha pelo impedimento e os jornais corrompidos?  Negociar o mandato com interlocutores não autorizados pode ser o fim da consagração obtida por Dilma Rousseff. Afinal, foi por um conchavo, desmoralizando o valor do voto, que ela saiu; é assim que pretende voltar? Mau negócio.

CRIMES QUE COMPENSAM

A sociedade brasileira pagará inflacionado preço político, econômico e jurídico pela obsessão da equipe da Lava Jato. Foi solta Nelma Kodama, criminosa, reincidente em atentados contra o patrimônio público e contra as finanças do Estado. Esperta, tanto quanto seu ex-marido, Alberto Youssef, só por conveniência os procuradores curitibanos afirmam que devolveu os valores ilicitamente depositados no exterior. O que a libertou não foi a devolução, mas a delação de quem já está na lista negra da Lava Jato. Na realidade, lista branca, pois brancos são Paulo Roberto Costa, Pedro Barusco, Jorge Zelada, Nestor Cerveró, Renato Duque e outros do mesmo time. Alguns, libertados antes da talentosa Kodama, desfrutam a tranquilidade de sítios em regiões serranas; outros, de  tornozeleira e copo de uísque, curtem os crimes à beira de piscinas. Proibidos de se ausentarem dos sítios e das piscinas, que fantástica pena!

O tempo dirá se os condenados o foram, todos, por justa causa, mas não deveria haver contemplação com predadores. E, em parte, está havendo, via sub-reptícia sentença de meia inocência/meia culpa da real organização que deglutiu a Petrobrás. Enquanto os procuradores e a Polícia Federal desperdiçam dinheiro, tempo e mão de obra na desesperada busca de provas identificando Lula, Dilma e associados como cabeças e estado maior da corrupção, vão liberando para novas aventuras os titulares das falcatruas efetivamente apuradas e sentenciadas até agora. Está na página da Lava Jato: Alberto Youssef, Pedro Barusco, Paulo Roberto Costa, Jorge Zelada, Nestor Cerveró e Renato Duque, com seus subordinados atravessadores, Baiano, Ceará e codinomes similares, foram os organizadores, operadores e beneficiários das tramoias. A esses se junta uma população variável de executivos das empreiteiras, ora da Odebrecht, ora da OAS, ora da Camargo Correia, e por aí vai, conforme o objeto da trapaça – sonda, navio, afretamento, etc. Os bandidos profissionais são constantes. Alberto Youssef, em particular, é um privilegiado larápio: roubara antes, foi preso, foi solto, favorecido por escaninhos da legislação brasileira, reinaugurou, com novos sócios e em escala espetacular, a empresa criminosa, preso outra vez, e outra vez a ponto de ser solto, mimo proporcionado pelo instituto da delação premiada.

Está concentrada em parlamentares do PMDB e em verdadeiro batalhão de próceres do PP, a ser enriquecida com as delações de Sergio Machado e Pedro Correa, a conexão política de Alberto Youssef e associados. Um ou outro do PTB, e a grande estrela petista, João Vaccari. Na sentença de Vaccari o juiz Sergio Moro elabora sua teoria gnoseológica do comprometimento de todos os membros do Partido dos Trabalhadores, por ação ou omissão: receptador e distribuidor das propinas, Vaccari teria garantido financiamento ao “projeto de poder” do PT, de que todos os petistas se aproveitaram, conscientemente. Só que, depois de dois anos de sucessivos anúncios de sólidos indícios da participação dos políticos petistas na rede corrupta, os valentes procuradores e policiais federais só encontraram figuras carimbadas: Youssef, Costa, Barusco, Duque, e o Andre Vargas que, em voo solo, extorquiu publicidade da Caixa Econômica para empresa familiar. Ah, sim, além dos milhões e milhões de dólares de Youssef e companhia, soltos, deram com um sítio em Atibaia, alegadamente de Lula, com benfeitorias providenciadas pela OAS.

Em meio às piruetas midiáticas para justificar futura prisão do ex-presidente, e desviada a atenção dos telespectadores para buscas hiperbólicas, logo esquecidas, a Lava Jato libertou a quadrilha comprovadamente responsável pelo assalto à Petrobrás. Todos com tornozeleiras, evidentemente. Tirante o incômodo no pé, o crime compensa.

SAÍDA OU BECO CONSTITUCIONAL?

À impossibilidade de Dilma Rousseff retomar relações com uma Câmara cuja demencial maioria só faltou chama-la de rameira, porque de ladra o foi, juntou-se o desastre de Michel Temer e seus larápios confederados, de Roraima ao Rio Grande Sul, sob a coordenação de um escroque do Rio de Janeiro. O precário ajuntamento de Michel Temer não obterá apoio ativo da sociedade, só repulsa; Dilma Rousseff, se reinstalada, sequer cumprimentará as 367 vossas excelências sem compostura da Câmara dos Deputados, que continuarão a sabotar seu governo. O nó produzido pela ambição e irresponsabilidade da coalizão do mal, PMDB&PSDB, não é solúvel nos artigos constitucionais vigentes. Salvo engano, a crise de usurpação só terá fim quando inventarem uma interpretação jeitosa que, embora nua, cubra a ilegalidade do acordo. Quem conseguirá e como o fará são interrogações que ultrapassam minha imaginação. Só estou seguro de que não há solução constitucionalmente imaculada para tamanho desarranjo político.

Desconheço a extensão da ferida aberta no envelope protetor de nossa democracia e da overdose de insegurança inoculada na população. Certo é que, contestando futura vitória eleitoral do mais humilde prefeito, há de surgir um Aécio qualquer reivindicando seu impedimento, com a cumplicidade de conivente maioria de vereadores, do judiciário local, e a colaboração do pasquim da cidade. O acerto de agora não apressará a cicatrização da ferida. Só a continuidade das eleições apagará a suspeita de que o compromisso democrático é um logro.

A ideia em circulação de que Dilma Rousseff convoque plebiscito tem endereço errado. Artigo 49 da Constituição: “é da competência exclusiva do Congresso Nacional, inciso XV: autorizar referendo e convocar plebiscito”. A esta altura, beira a ingenuidade imaginar esta Câmara e este Senado revogando o que aprovaram ontem.  Espreita as duas Casas a confirmação de que os legisladores não desmoralizaram a presidenta, mas o próprio mandato. E quanto tempo do governo reinstalado tomará o debate entre os a favor e os contra a convocação? Sim, embora pouco provável, não é impossível que movimentos de rua alterem a disposição do Congresso. Mas é ainda obscura a alternativa a ser proposta, além do rumor: convocar ou não nova eleição presidencial? Se milagrosamente vitoriosa a tese da convocação, o governo trabalharia pela tese de novas eleições, mas, não sendo ”já”, quando seriam? Não antes de 2017, certamente. Está aí o Tribunal Superior Eleitoral, presidido por Gilmar Mendes, para procrastinar a eleição, enquanto se esgoelam as campanhas de três candidaturas, no mínimo, além da de Mariana Silva. Sendo tolo o governo gastar capital na convocação de novas eleições para perdê-las, ninguém reclame quando administrar a coisa pública, que é bom, ficar para as horas vagas.

Estão abusando da disposição democrática da população. Longe de exercer advocacia do diabo, pergunto se realmente acreditam que este caminho domará a exasperação direitista, satisfará os inconformados e normalizará a rotina da administração pública. Tenho dúvidas.

DEPOIS DO VENDAVAL DA LAVA JATO, O DESCONHECIDO

Custou mas foi rompido o dique de proteção ao PSDB empilhado em Curitiba. Quanto mais cresce a papelada que nada revela sobre fenomenais transgressões de Lula e Dilma Rousseff, mais entulhadas ficavam as gavetas com as alusões a Aécio Neves e a Fernando Henrique Cardoso, escalando o pobre do falecido Sergio Guerra como único tucano meliante. Os procuradores não imaginam aonde o descontrole do processo os levará. Nem ninguém. Conversa fora discutir presidencialismo de coalizão, cláusula de barreira e outros penduricalhos. Criminalizadas as coalizões eleitorais desde a AP470, não há partido virgem da contabilidade de dupla entrada na OAS, Camargo Correia e coirmãs. Há um dinheiro amaldiçoado depositado em contas bancárias, circulando nos meios financeiros, envenenando o orçamento de empresas de publicidade, os lucros dos barões da imprensa, os bônus de redatores de jornais e de apresentadores de televisão. Enquanto o alienado presidente interino Michel Temer resolve pagar para ver, mantendo conhecidos mandriões nos ministérios, a bocarra da Lava Jato deglute o chão das instituições.

O sistema partidário está podre, não como inevitabilidade da democracia representativa, mas porque o somatório das degradações individuais ultrapassou de muito os dois terços exigidos para emendas constitucionais. Fizeram da Constituição um habeas corpus preventivo, contando com o silêncio constrangido de poucos. Todos os políticos sabem disso. E se não for amordaçada ou voluntariamente “estancar a sangria”, na feliz expressão do sorridente larápio Romero Jucá, a Lava Jato de um pulo irá da Câmara dos Deputados a seu braço de negócios jurídicos, o Tribunal de Contas da União, tudo com os intermediários, parentes, sócios e laranjas anotados. Daí, com baldeações, a investigação chega ao sistema produtivo estatal e, acorrentada a este, à população da FIESP e assemelhadas, algo tão inconcebível hoje como era o processo de impedimento de Dilma Rousseff quando Aécio Neves o solicitou, em meio à ressaca da derrota. Mas bastaria dar tempo ao tempo e não parasse a Lava  Jato. Vai parar, só que o tamanho do desastre nem por artes de quem vai estacionar não está escrito nas estrelas. Deixou de ser um jogo de cartas marcadas. Nem há um salve-se quem puder à disposição.

O grupo presidencial usurpador desconhece o potencial do turbilhão; ignora a própria ignorância. De esperteza extensa, mas visão curta, não lê direito história nem mesmo Maquiavel, que um áulico recitou em exercício de sabujice juvenil. Segundo ele, Maquiavel sugeriu ao Príncipe que fizesse todas as maldades de uma só vez, sendo parcimonioso na distribuição de benesses. O trombadinha estava certíssimo e o conselho encontra-se ao fim do capítulo VIII, que ele não leu. Eis o título do capítulo: “Sobre aqueles que conquistaram a posição de Príncipe por vilania”. Ou leu?

ÚLTIMAS PALAVRAS

joiaoSegundo Ludwig von Candongas, bem informado, o pilantra da Cultura midiática continua usando a blogosfera para desfilar narcisismo e soletrar asneiras. A última vem sob a forma de incompreensível estultícia. Para o pilantra, “o Brasil é uma Venezuela invertida”. Cáspite! Já a capitã do time Jogos Vorazes abocanhou a Associação dos Produtores Teatrais. É o progresso da ordem usurpadora do governo interino.

Enquanto o a Câmara dos Deputados aceitar conviver com Jair Bolsonaro, torturador por interposta pessoa, não deve ser considerada uma casa de respeito, mas bordel sem alvará para funcionamento. O que ela faz e aprova terá que ser desfeito e reprovado no futuro.