Arquivos mensais: novembro 2015

CONFISSÃO DE IGNORÂNCIA

Bem, não sei interpretar o momento nacional. Somando a reduzida previsibilidade e credibilidade de instituições centrais da democracia: partidos políticos, imprensa e decisões de governo – sobra pouco para garantir racionalidade ao quebra-cabeça resultante.
Pior, parece-me que nem governo nem Legislativo se encontram em situação muito mais sólida. Mesmo a imprensa, sempre coerente em seu estranho afazer, ora incensa ora amaldiçoa suas fontes anônimas e seus ídolos arroz de festa de inúteis reportagens. A economia é uma, nas declarações ministeriais, e outra nos indicadores e pesquisas de institutos acadêmicos. A crer no currículo de fracasso de ambos, ambos devem estar errados. Exceto se peco por implicância, as personagens políticas, desgastadas em entrevistas diárias, são já insuportáveis, tanto quanto a xaropada de colunistas sobre corrupção alheia e as previsões despudoradas das autoridades, qualquer autoridade, sobre este, aquele, ou qualquer assunto.

O Judiciário entrou na roda. Não só pelos indícios de arbitrariedades em algumas investigações, mas por surpreendentes novidades interpretativas. A mais recente convoca a figura criminal de alguém ser “suspeito de ser suspeito”, que não é assim nomeada, mas único entendimento possível para justificar prisões controversas. Por pouco não se obriga a população à cruel escolha da narrativa bíblica entre o bom ladrão e o mau centurião. Em cinemas de bairro o bom ladrão acaba aplaudido. Aliás, o que deve fazer um ladrão para ser bom? Talvez o que tem feito o reincidente criminoso e delator Alberto Youssef. Transcrevo O Globo, 29/11/2015, página 5. Incapaz de explicar como passava somas clandestinas a enorme lista de políticos, o doleiro foi ajudado pelo inquisidor da seguinte maneira: “Questionado no depoimento se os nomes de outros deputados poderiam ter sido incluídos só para que a cúpula recebesse mais repasses (bola levantada pelo agente público – WGS), o doleiro disse que não se pode duvidar disso”. Não se pode duvidar? Quer dizer, a suspeita do agente ganhou comprovação pelo juízo abalizado do doleiro? E aí o doleiro fez o gol de placa da moral da Lava Jato:

“‘Dessa gente pode se esperar tudo’, registra o termo do depoimento do doleiro”.

Alberto Youssef passou a ser, oficialmente, o inspetor dos costumes políticos brasileiros.

ÚLTIMAS PALAVRAS

joiao  Se todos os ministros do Supremo Tribunal Federal tivessem o mesmo senso de oportunidade e firmeza de convicção da ministra Carmem Lucia, já demonstrados em declarações durante a AP470, desafiando réus em vias de condenação, e repetidos agora em tom de revolução espanhola, a Corte ficaria sem ter muito a discutir. Provavelmente seriam também dispensáveis novas edições da Constituição Federal. Pena serem remotíssimas as chances de haver outra candidata à Presidência da República além de Marina Silva, pelo menos em 2018.

TERROR  EXECUTIVO/LEGISLATIVO 

O EXECUTIVO E O LEGISLATIVO FIRMARAM PACTO DE AGRESSÃO AO DIREITO DE DIVERGIR. COM PRETEXTO DE COIBIR POR ANTECIPAÇÃO EPISÓDIOS TERRORISTAS, ESTÃO A PONTO DE SACRAMENTAR LEGISLAÇÃO QUE ENTREGA À INCLINAÇÃO COERCITIVA DAS AUTORIDADES O PRIVILÉGIO DE DELIBERAR SE DESFILES TRANSGÊNERO SÃO ATOS DE TERRORISMO. JÁ ESTANDO CAPITULADOS NO CÓDIGO PENAL OS ASSASSINATOS E VANDALISMO DE QUALQUER NATUREZA E ENVERGADURA, MANIFESTAÇÕES QUE ULTRAPASSEM O ENVIO DE CORRESPONDÊNCIA À SEÇÃO “CARTA DOS LEITORES” SÓ TERMINARÃO PACIFICAMENTE SE ASSIM O PERMITIREM OS CAVALOS OU OS CACETETES E BOMBAS POLICIAIS. TRATA-SE DE LEI VIRA-LATA, SUBMISSA AO ATO PATRIÓTICO DOS ESTADOS UNIDOS, SEM A DIGNIDADE DA ARROGÂNCIA IMPERIAL DESTES, E NADA ALÉM DE ABJETA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA.

DEPOIS DA SÔFREGA ASSINATURA DO TRATADO DE (NÃO) PROLIFERAÇÃO NUCLEAR POR FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, ESTE SERÁ O SEGUNDO CALABAR DA HISTÓRIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA.

REFERENDO! REFERENDO! REFERENDO! REFERENDO! REFERENDO!

Últimas palavras

joiaoDurante o stalinismo o Autor da infâmia sobre a família do ex-presidente Lula, estampada há pouco como furo de reportagem, seria fuzilado. Exagero repudiado por sociedades protegidas por Cesare Beccaria, fundador do direito liberal, e advogado da proporcionalidade das penas. Mas desde quando pedir desculpas é pena proporcional ao delito de macular sem fundamento e às tribulações morais e materiais da vítima que não se esgotam com o alegado arrependimento do delituoso? A infâmia é um crime de efeitos continuados mesmo quando cessa a causa.

Em alguns, casos, o crime, no Brasil, compensa.