Arquivos mensais: outubro 2015

Entre borboletas e vermes

Na improvável hipótese de que a política permaneça em estado larvar até 2018, o que a oposição espera ganhar? Política larvar porque o envelope esconde a mutação contínua do conteúdo. Um belo dia sai de lá uma borboleta e o mundo fica mais bonito. Ou um verme, para desgosto de todos exceto da mamãe verme. Quando não se reconhece a larva, ignora-se a natureza do rebento, produzindo ansiedade nos interessados no parto. Caso da política larvar, em que cada dia se parece exatamente com o anterior, sem que a silenciosa bioquímica da gestação se faça conspícua. Com prazo de validade desconhecido, a gestação pode ser bem sucedida ou interrompida a qualquer momento até que, em 2018, a intervenção do voto ponha tudo à luz para susto de alguns e alvíssaras de outros tantos. Em qualquer caso, o bem nascido não há de se parecer com a pasmaceira atual. Nem a letargia do momento expressa parada cardíaca dos acontecimentos embrionários. Mas se nada de memorável acontecer, o que pensa a oposição oferecer em escambo por voto, em 2018?

Algemada à tese do impedimento presidencial, a oposição agarra-se à estratégia de, para início de conversa, impedir o governo de governar. Início e fim, pois a sucessão de fracassos administrativos do Executivo desagua no impedimento operacional da presidente Dilma Rousseff. Limitado à demanda por ato formal interrompendo o governo ou o manietando enquanto e não, o aceno tucano-partidário será nulo, em 2018, pois de um modo ou de outro o governo terá terminado. Em amargo sentido, a oposição terá falhado justamente com o desenlace que buscava: o fim do mandato presidencial. Não tendo mais nada a dizer, é duvidoso que da oposição surja uma borboleta capaz de encantar Vladimir Nabokov, conhecido borboletólogo, em português canhestro, o que deixa no ar inquietante interrogação: se os tucanos e seus acompanhantes não vão parir uma borboleta (o que seria estranhíssimo, convenhamos), o que nos reservam as dores abdominais de um governo acamado, se se prolongarem por três anos?

O princípio do fim

A estridência oposicionista se aproxima da sublevação institucional. O inconformismo com a derrota eleitoral foi, durante algum tempo, compreensível. Frustração quando a vitória parece certa e o champanhe aberto gera amargor na alma e deslizes na linguagem. Resmungos, suspeitas de ilicitudes, impossíveis sonhos de reescrever a história fazem parte do luto. De duração curta, contudo, para merecer tolerância dos vencedores. Pois a derrota foi lisa, os vitoriosos legalmente proclamados e constitucionalmente empossados.

Negar ao vitorioso o direito de governar expressa imaturidade política ou aventureirismo.    E não há tese melíflua que não conquiste adesões à altura. Aí está o grupo “bossa velha” do PSDB, de pura cepa udenista, engrossado pelo PPS do ressentimento e o DEM de genealogia ditatorial. É a nostalgia do poder perdido pelo voto que une o bando, não a pureza da legalidade democrática.

A viscosidade vingativa dispõe de infiltrados no judiciário, na imprensa, na burocracia estatal, na blogosfera e nos supermercados, farmácias e restaurantes, onde, com assegurada impunidade, insultam os vencedores. Investigações meritórias, como a da Lava-Jato, acobertam o sadismo juvenil de ideólogos conservadores sans  le savoir. São profissionais da punição, munidos de espantosa ignorância sobre as maliciosas encarnações do bem e do mal. Por isso, vulneráveis à sedução do poder arbitrário.

A última manifestação dos sublevados busca o impedimento presidencial pela acusação de que o exercício do governo, agora em 2015, repete alegadas ilicitudes de 2014. Ora, só haverá ilicitude em procedimentos deste ano se e quando o Tribunal de Contas da União assim arbitrar. A rigor não existem duplos de coisa alguma no mundo, confirmando sólida tese existencialista de irredutibilidade da individualidade. Semelhanças podem parecer extremas, mas somente o TCU, sem violar a lei, está autorizado a tomar a aparência pela realidade. Aliás, em acidental ajuda à tese dos sublevados, o expedito procurador Júlio Marcelo de Oliveira, do Ministério Publico, pediu e o agilíssimo ministro do Tribunal de Contas, Raimundo Carreiro, despachou favoravelmente à abertura de processo para averiguar suposta repetição de ilícitos fiscais neste segundo mandato de Dilma Rousseff. Mas, assim como rejeitou certos procedimentos que consagrou em passado recente, continua o TCU com autoridade para recepcionar e autenticar atos parecidos, quando julgados em 2015.

A sublevação oposicionista despreza decisões legais que não facilitem depor a Presidente para depor o poder em colo tucano. Parece, entretanto, para desconforto do bando de tucanos e aliados, que, aconteça o que acontecer, nada será por força dele nem em seu benefício.

VERGONHA E REDENÇÃO À ESQUERDA

Em sessenta e cinco anos de história brasileira, os grupos políticos à esquerda amealharam algumas dolorosas derrotas. Logo ao início dos anos 50, feroz oposição liderada pelo Partidão ao segundo governo de Getulio Vargas só cessou quando a oposição conservadora emudeceu perante o suicídio presidencial, em agosto de 1954. A memória seletiva da esquerda tradicional apagou a ferida de que a morte de Getulio não calou apenas a direita.

Triunfalismo na interpretação da vitória sobre a tentativa golpista de impedir a posse de João Goulart, em 1961, estimulou radicalismo esquerdista crescente que, somado à míope presunção antecipada de poder, manietou o governo trabalhista e pariu a anestesia de todos os setores da esquerda, espectadora aturdida da marcha patusca de Mourão Filho, em 31 de março/ 1 de abril de 1964, transformada em vitória da reação, quarenta e oito horas depois, sem enfrentar resistência séria. A versão canônica da esquerda some com vários personagens do enredo e coloca fuzileiros navais americanos, que não estavam no roteiro, dando sentinela às portas do palácio do Governo, recebendo os golpistas que atravessavam a rua, vindos do Congresso. A derrota perdurou por 21 anos.

A partir de 1969, com o início da segunda edição do golpe civil-militar, registrada como Ato Institucional nº 5, veteranos de organizações revolucionárias convocaram a paixão de generosa juventude e acreditaram na via armada para o socialismo. A desilusão com as históricas lideranças progressistas, particularmente com o Partidão, cobriu de simpatia o apelo heroico e, a acreditar no testemunho posterior e memorialístico de sobreviventes, o estoque natural de solidariedade dos dezoito anos fez com que muitos ingressassem na rebelião acompanhando amigos de geração ou colegas de colégios e universidades. Para alguns mais lúcidos, a guerra foi perdida quando se deram conta de que “reagrupamentos de forças” escondiam contundentes derrotas físicas e, mais friamente, quando a taxa de recrutamento de combatentes ficou sistematicamente abaixo da taxa de perdas por desaparecimento, morte e prisão. Duríssimos momentos em que a rendição significava aparente e irreparável traição emocional aos companheiros mortos pela causa que estavam prestes a confessar perdida. Desde 1974, a tentativa revolucionária, como opção coletiva, estava destruída. Os militares, no entanto, fizeram dos mortos fantasmas a assustar conservadores e liberais por mais 11 anos.

De todas as desventuras, inclusive menores, os grupos à esquerda saíram feridos, mas não envergonhados. O rubor nunca fez parte do cardápio do campo progressista da política. Até recentemente. Por maior que seja o exagero e a falsificação do noticiário, por extensa que se prove a arbitrariedade do judiciário curitibano, não é possível à esquerda fingir que não é com ela. Reinterpretar a história para ficar bem na foto é estratégia eficaz enquanto a emoção não entrega os pontos. E não há cremes e batons que disfarcem o embaraçoso corado da face, o caminhar desorientado, o desânimo vocal. Trata-se de uma prostração histórica, não da batalha circunstancial de uma eleição ou outra. Vitórias eleitorais serão importantes, mas insuficientes para convencerem bons filhos a retornarem à casa antiga. A ruptura com os seduzidos pelos nefandos hábitos da direita privada, sempre pronta a expropriar clandestinamente os recursos públicos, é inevitável. Difícil e triste, pois exige autocondenar a negligência com que cada um se deixou encantar por um punhado de bravos, que o foram, quando deixaram de o ser. Crimes da direita não redimem pecados da esquerda.

A favor dos direitos civis e políticos de todos, não satisfaz à esquerda, contudo, refutar ilícitos de que herdaram a responsabilidade política com a denúncia de ilícitos cometidos pela processualística das investigações. A purga do desencaminhamento será amarga e lancinante. A começar pelo desconforto de reconhecer por ações e palavras que parte dos decaídos, a maior talvez, não está mais entre nós. E convocar os dispostos à longa reconstrução institucional do destacamento de vanguarda do país. A contabilidade de quantos bons filhos de boa fé sobraram é urgente.

Últimas Palavras

joiao

Desaparecido desde as Kantianas Brasileiras (1984), o grande filósofo Ludwig von Candongas enviou mensagens sujeitas a interpretação:

– Apesar do adiamento imposto pela PEC da bengala, o ministro Gilmar Mendes prepara sua candidatura ao Senado assim que se aposentar.

– Da Constituição de 88 não consta o substantivo “impeachment”. O artigo 80 menciona “impedimento”. Recomenda-se leitura de dicionário inglês-português. Se as petições não estiverem escritas na língua pátria não tem validade alguma.

– Em 2013 a presidente Dilma Rousseff tinha conhecimento de que a economia já fazia água? A oposição irresponsável diz que sim e que justificaria seu impedimento. Segundo minhas consultas, o eleitorado que a apoiou tem dúvida, mas não consideraria suficiente para impedi-la. Mas renegá-la, isso com certeza.

– Foi o PMDB que aderiu ao governo ou foi o governo que aderiu ao PMDB?