Arquivos mensais: agosto 2015

A reação das ruas

A sede do reacionarismo mudou-se de Minas Gerais para São Paulo. Parte da razão é econômica. Entre 2002 e 2012, só os estados do Norte, Centro-Oeste e Nordeste, com exceção da Bahia, aumentaram a contribuição de suas economias para a formação do Produto Interno Bruto. Atribuir a desconcentração econômica exclusivamente aos governos petistas seria tão simplista quanto convocar apenas a sabedoria do mercado para explicá-la. Com participação cadente no PIB nacional, a economia paulista enfrenta um crescimento medíocre nos últimos anos, com substancial retração anunciada para este ano, 2015, e, pelo menos, o próximo, senão ainda 2017. Quando a liderança de um país escolhe a ladeira da recessão, é muita ousadia, talvez presunção tecnocrática, proclamar quando ela irá terminar. A incerteza de que falam os porta-vozes jornalísticos não é do País, mas a da que paira sobre o destino da geração empresarial afilhada da ditadura.

Como de hábito, em momentos cíclicos desfavoráveis o empresariado esquece noções primárias de economia. O alienado da ficção de Nelson Rodrigues era a favor do capitalismo, embora contra o lucro. Agora, vários imaginavam um ajuste fiscal com manutenção do nível de consumo. Não há panelaço à altura de semelhante tolice. Reduzido o tamanho do bolo e posta a economia em pandarecos, a competição entre segmentos empresariais adquire vocalizes bárbaros, com origem em sua garganta inflamada – São Paulo. A histórica truculência da política bandeirante contaminou a cultura cívica nacional, os vitupérios se abrigam nas reportagens e nos editoriais, a pornografia e o mau gosto florescem no mundo da internet e de medíocres colunas jornalísticas. A guerra civil paulista foi exportada para Brasília. O palavrão virou estilo!

De junho de 2013 a 2015 o protagonismo baderneiro de São Paulo foi crescente. Baderna institucional e, como o capitalista ideológico de Nelson Rodrigues, alienada. Ser responsável por quase 40% do total nacional de manifestantes, como o foram os paulistanos em 16 de agosto último, será heroicamente lembrado em futuros editoriais e teses de pós-graduação no circuito universitário de São Paulo. Claro, caso os movimentos de esquerda e o governo de Dilma Rousseff, que lhes deu as costas, sejam definitivamente enforcados no palco da hipocrisia nacional. Um resultado, porém, será certo: não há substituto de governo que amenize o futuro imediato de um parque industrial que ainda não justificou o regime de engorda obtido desde o governo JK. Em outras palavras: o mau gosto continuará desfilando na imprensa, nas ruas e nas tribunas. Este, sim, é um carnaval decadente.

A LAVA JATO E O PARTIDO DOS TRABALHADORES

novidade política da Lava Jato é a revelação de que o Partido dos Trabalhadores cedeu à tentação de patrocinar e se beneficiar das relações espúrias entre interesses de grupos privados e iniciativas públicas. Faz parte da história intestina de todas as sociedades acumulativas o víruS da predação, do suborno, do saque, da extorsão e da violência em busca de vantagens além dos méritos competitivos. O Império inglês foi assim construído, incluindo associações clandestinas com piratas e corsários, no século XVIII, e escândalos internos sem fim desde o XIX; a riqueza das cidades hanseáticas e italianas que financiaram os jardins artísticos do Renascimento, seus pintores, arquitetos e escultores, essa riqueza foi obtida mediante fraude e corrupção de bandidos inescrupulosos e violentos, organizados em poderosas companhias de negócios. A grande arte flamenga e espanhola é rebento da generosa dissipação de recursos de ladrões e assassinos em versão marqueteira de mecenas. O extraordinário progresso material norte-americano a partir de meados do XIX colocou na galeria cívica do país os “robber barons”, sabidos e consabidos corruptos, genocidas, paradigmas das administrações libertinas e extorsivas das grandes cidades contemporâneas como Chicago, Nova York, Los Angeles ou Kansas City, sempre com a cobertura midiática de campanhas moralizadoras. As fraudes eleitorais são discutidas tão abertamente quanto o financiamento de campanha e não é segredo que a vitória democrata de John Kennedy contra Richard Nixon nada teve de católica (acobertada pela patranha midiática de que Nixon perdeu por causa do último debate na televisão), com os Republicanos dando troco na roubalheira da Flórida que deu a vitória a Bush Junior sobre Al Gore. Tudo supervisionado pelas autoridades eleitorais. Ninguém chia, trata-se de assunto exclusivo entre eles: dos roubos econômicos aos roubos eleitorais. O vírus está lá, agora protegido nos portfólios do sistema financeiro mundial.
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