Arquivos mensais: junho 2015

Ecce Homo

Poucos personagens públicos do Brasil contemporâneo serão homenageados com lápides congratulatórias. Em sua maioria nada têm de si senão a obsessão de sobrepujar o próximo. Aí confraternizam acadêmicos, artistas, esportistas, jornalistas e, claro, políticos, salvo Lula. Atávica inclinação vampiresca, o canibalismo de caráter não é produto exclusivamente nacional, está globalizado, mas temos produzido inspirados episódios de canalhice. Não lhes faltam aplausos externos. Se o vampirismo é inevitável, o afã construtivo é matéria de escolha e competência – aqui a excepcionalidade de Lula. Ninguém dele dirá que tenha sido angelical. Nem isento de graves pecados. Provavelmente só o próprio conhecerá a extensão de sua vilania. Assim como seus adversários saberão das suas. Mas o que é público e notório está à disposição de todos, não obstante o verbo ressentido das denúncias.

Na lápide de Lula hão de constar a incorporação dos miseráveis à agenda governamental, o desmascaramento da ideologia da sociedade sem classes e sem raças, o desafio ao complexo de subalternidade das elites tradicionais. Audácia imperdoável. Há de constar que, ferido o indivíduo, empunharam armas os sombrios heróis dos assassinatos sem risco, das infâmias subsidiadas, da valentia do monólogo. Através do indivíduo miram os descalços e esfarrapados, como se o desejado féretro de um abolisse a existência dos outros. Em vão. Nem sucumbirá o homem público nem o soterrarão os carnavais de almas rotas pelo ódio. É simplesmente triste observar a revelação da mesquinharia das assim chamadas pessoas de bem, justiceiros de oportunismo em busca de um naco da reputação do grande líder popular. Lula, o intérprete dos desassistidos, permanecerá intacto, ainda que o comprovem privadamente pérfido. É possível, mas será o homem com CPF, não o vitorioso no duelo com os reacionários. Estes não terão lápide, não terão memória, não terão registro. Serão abolidos.

Últimas Palavras

joiaoA modesta participação de partidos oposicionistas nos autos da Lava Jato não se deve tão somente à deliberada imperícia investigativa dos agentes do ministério público e do juiz que os comanda. É também porque os governos conservadores não se envolvem com empreiteiras, pois não fazem obra alguma.

Bancos centrais suicidas devem ser manietados.

Classificação de risco cada um escolhe a sua

As agências de risco são o “boi da cara preta” dos governos que adotam políticas contra os assalariados. Terceirizam a soberania. Os governos dos países ricos não lhes dão bola, enquanto ministros pobretões, os do Brasil entre eles, só faltam ajoelhar. Mas seus índices e graus nada têm de mágico ou inviolável. São criados com objetivos definidos, controversos, assim como sujeitas a objeções as conexões que fazem entre conceitos, medidas e evidências. Mesmo mantendo consistência interna, índices são atrelados a interesses de seus formuladores, não necessariamente malignos, mas interesses.

Pois acabei de elaborar um legítimo Índice de Republicanismo Democrático da América Latina (IRDEAL). O IRDEAL é composto de três dimensões, como segue: Republicanismo – revela o grau de laicidade da Constituição; Democratização – a idade é o único requisito para votar ou ser votado; Estabilidade – número de atentados institucionais durante o século XX.

Começo pela comparação entre a Argentina e o Paraguai. Na dimensão Republicanismo, o Paraguai aprovou em 1992 uma Constituição laica, expressa em seu artigo 24: “(…) Ninguna confesión tendrá carácter oficial. Las relaciones del Estado con la iglesia católica se basan en la independencia, cooperación y autonomía”. Já o artigo 2 da Constituição Argentina, aprovada em 1994, registra: “El Gobierno Federal sostiene el culto católico apostólico romano”. Na dimensão Democratização, diz a Constituição paraguaia, artigo 120: “São eleitores os cidadãos paraguaios radicados no território nacional, sem distinção, que tenham completado 18 anos de idade”, e para serem eleitos não há requisito de renda. Ao contrário, a Constituição argentina estabelece no artigo 55 que, para ser Senador, é necessário “disfrutar de una renta anual de dos mil pesos fuertes o de una entrada equivalente”. Mais adiante, artigo 89, se lê: para ser Presidente, o candidato apresentará “las demás calidades exigidas para ser elegido Senador”, ou seja, renda. Finalmente, sabe-se que os países latino-americanos foram desigualmente turbulentos no século passado. A Bolívia, campeã, enfrentou 14 golpes de Estado, o Brasil e o Chile, 3, Honduras, 9, Guatemala, 8, Peru e Argentina, 11, e o Paraguai, 4.

Moral: de acordo com o IRDEAL, o mestiço Paraguai dispõe de um passado com menos rasuras do que o da italiana, que fala espanhol, e pensa que é inglesa, Argentina. Asseguro que nada compromete a utilização do IRDEAL, fora ser desvalido de poder econômico e salvo as cautelas aplicáveis a qualquer índice, inclusive aos patrocinados pelas agências internacionais, piamente endossados por governos locais. Estes são submissos por escassez de disposição beligerante. Em disputa de índices, decisivo é o custo do conflito, não a ordem dos fatos.

Ficar bem na foto com a memória alheia

Liberdade de informação é uma ótima ideia, mas a futrica das biografias não autorizadas não é tão barata assim. Desde que inventaram a moeda para viabilizar as trocas e contabilizar o lucro, discute-se o que é próprio e não é próprio vender, como, quando e por quanto. A Igreja católica já vendeu indulgências, o Império brasileiro vendia títulos de nobreza e a internet vende tudo – corpo, alma e a reputação de terceiros. Há hospitais espalhados pelo mundo especializados no comércio de transplantes de órgãos, mercadejados por infelizes. Nem vale mencionar a prostituição, porque esse negócio conta, na verdade, com a cumplicidade de todos.

Mesmo antes de se inventar a imprensa alugava-se e vendia-se opinião, e houve tempo em que transmitir conhecimento a soldo era considerada uma atividade mais do que vulgar, charlatanesca. Os sofistas, antepassados dos professores, sofreram o diabo com os platônicos enquanto, hoje, há quem proteste contra a repressão às artes da quiromancia e dos videntes das bolas de cristal. Jornais e revistam que se prezam trazem, obrigatoriamente, seções de astrologia, mas saiu de moda o consultório sentimental, expulso do mercado pela psicanálise. Quem, afinal, define o que é mercadoria legítima e o que não pode ser vendido, apenas doado?

Há três séculos se divulga que é mercadoria, em princípio, tudo que se submete às curvas da oferta e da demanda. Se há oferta e demanda há preço e se há preço, há mercadoria. Meio rude, mas é o que consta dos autos. Ora, a exigência de compensação financeira para autorização de biografias, ainda que antipática, não viola as regras gerais da sociedade contemporânea. Ninguém está na vida só para ser simpático e, como diz o outro, isto é, David Ricardo, todo mundo precisa sobreviver. Embutida na renascentista tese da liberdade de informação esconde-se esta desagradável questão: é ou não aceitável que alguém transforme a memória de sua vida em mercadoria? Nem os juízes nem a crítica se fizeram essa pergunta, preferindo aderir à fácil bandeira da manada. Não são fetichistas do mercado? Pois mercado coerente é isso aí.

Ajuste fiscal pode, mas vender memória, não? Estranho.

Últimas palavras

joiaoÉ correta a tese de que a esquerda não é dona do governo; por igual, o governo não é dono da esquerda.

Sem confiança o empresariado não investe, sem investimento a economia não adquire dinâmica e sem dinamismo econômico o empresariado não assume riscos.

Não existe almoço grátis.

Três declarações que não levam a coisa alguma.

Vem pro ciclo você também

Com excelentes indicadores de desemprego (em alta), juros (idem) e atividade econômica (em baixa) a alegria dos algoritmos governamentais não poderia ser mais vibrante. Finalmente surgiram os sintomas de saudável recessão, prelúdio insofismável de futuro crescimento econômico com contas públicas em que a coluna do “deve” se apresentará igual à coluna do “haver”. Claro, o governo será um dos raros agentes econômicos em que tal coincidência ocorrerá, ao custo fixo de que a maioria da população se angustie no vermelho, com o “deve” muitas vezes superior ao “haver”. Não se sabe por quanto tempo há de durar o êxtase dos contabilistas. Há teorias sobre o ciclo econômico para todo gosto, além das clássicas de Clement Juglar, de Simon Kuznets e de Nikolai Kondratieff. O tópico, naturalmente, criou uma profissão, tanto mais bem remunerada quanto mais longo for o período de morbidez social. Mas é inevitável a retomada do dinamismo dos negócios, dos investimentos, da criação de emprego e de aumentos salariais em algum momento futuro. Os algoritmos ministeriais soltarão foguetes, como é costume pelo mundo a fora, anunciando que o renascimento resulta da política paralisante que patrocinaram. Balela. Os sinais de vida têm raiz na letargia reinante e ninguém sabe por que cargas d’água eles aparecem. Tudo o que se pode dizer, e em resumo era o que Juglar imaginava, é que há um despertar simplesmente porque havia letargia, esta sim encomendada pelos algoritmos. Granítico exemplo de um mal personalizado corrigido por um bem coletivo.