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BALANCETE

Em matéria de estratégia, a do PCdoB foi a de maior êxito. Ameaçado pela nova legislação de perder privilégios parlamentares, sem assento em comissões, mesas diretoras, fundo partidário e tempo de televisão, as eleições proporcionais são o objetivo primordial do partido. Associando-se a chapas fortes, contará com votos dos partidos das coalizões para eleger seus candidatos. A apresentação de Manuela como candidata a presidente foi audaciosa. Destinada a ser absorvida, a candidatura ficou à beira do precipício com a escolha de Katia Abreu por Ciro Gomes. Se Lula continuasse a recusá-la o PCdoB teria que enfrentar sozinho a competição presidencial, provavelmente não tendo votos para atender à exigência da lei eleitoral para a representação no parlamento. Estratégia bem traçada e bem executada.

Ciro Gomes é o único capaz de promover duas campanhas simultâneas. Katia Abreu dispõe de personalidade e capacidade de articulação que a permitem fazer campanha em um lugar enquanto Ciro circula em outra praça. Marina Silva ou Geraldo Alkmin não contam com tal recurso. No PT, já com o problema de informar a seu eleitorado que o candidato não é o Haddad, mas Lula, exceto se Lula for impugnado, Manuela não tem como se apresentar senão junto com Haddad, deixando claro que, se Lula for candidato, o vice não será o Haddad, ali presente, mas ela, que, por ora, não é nada. Um pequeno transtorno será explicar, caso perguntem, o que acontecerá com Haddad, se Lula for candidato: voltará a dar aulas no INSPER, colégio de radicais antipetistas, ou será confirmado, não como o mensageiro de Lula, mas como vice mesmo? Aí o destino incerto será da Manuela. Nada disso tem importância para o eleitor, segundo os estrategistas do PT e seus porta-vozes na imprensa alternativa, porque eleger Lula ou seu preposto é o que importa. Mais nada.

Quanto a programas, Marina Silva, não obstante assessores de peso, não abre mão de confundir o eleitor com seu estilo baixo austral de Augusto dos Anjos. As votações que tem obtido são o maior mistério do comportamento eleitoral brasileiro. Se ela afirmar que, com os erros e roubalheiras do passado recente, pior do que está não pode ficar, será considerada uma declaração socrática – tipo, eu só sei que nada sei -, embora um plágio de Tiririca, cuja votação é igualmente incompreensível. Alkmin dispensa apresentar programas porque já é conhecido há vinte anos. O cartapácio do PT rebobina programas conhecidos, acrescenta velhuscas bandeiras como um imposto sobre fortunas e ignora por completo o complexo desafio da revolução industrial ponto 4 sem fazer ideia do problema de emprego que o País terá pela frente. Refere-se à intervenção no mercado da informação, sem maiores esclarecimentos, e serve a fantasia de reforma política junto com a promessa de uma Assembleia Nacional Constituinte. Mas a segunda, se cumprida, não promoveria a primeira? Talvez não, pois, segundo os pensadores petistas, os deputados não alteram as condições que lhes proporcionaram o mandato. Bem, fora a grosseira análise de como funciona um parlamento, onde pensam buscar candidatos e eleitores distintos dos atuais? Quanto a isso o programa oferece o conhecido escapismo de que tudo será feito depois de ampla consulta à população. Bem, não importa porque o projeto real é eleger Lula ou quem ele mandar.

O programa de Ciro Gomes tenta apresentar diagnósticos específicos de vários problemas materiais e esboça linhas de ação para minorá-los. Há substância para discussões relevantes, inclusive sua tese de que o presidencialismo é a fonte de todos os males e o parlamentarismo um primor de engenharia: se não está funcionando, o grupo deixa o governo e outra eleição, ou indicação do próprio parlamento, escolhe o grupo substituto. Não haveria o problema agônico da sucessão que precisa esperar quatro, cinco ou seis anos para solucionar um vexame como o de Michel Temer, por exemplo.

Ocorre que a Alemanha dos anos 30 era parlamentarista, na companhia de Portugal salazarista e outros da mesma cepa. Ciro está equivocado quanto à história das formas políticas. Em compensação, tem revelado conhecimento e preocupação com o ingresso do Brasil na ordem robótica, com a perspectiva de se tornar um dos países cronicamente proletários no mundo da automação. Mas todas as entrevistas são desperdiçadas com debates sobre o temperamento do candidato, suas relações com o PT e Patrícia Pilar. Ou seja, a imprensa convencional também não quer saber do programa de ninguém: já tem seu candidato tanto quanto parte considerável da imprensa alternativa. Pensamento único em todos os canais de comunicação.

A ÓPERA TRISTE

A declaração do Partido dos Trabalhadores de que o candidato indicado será a sombra de Lula é uma declaração indecente. A naturalização da figura de “poste de Lula” como legítimo representante da população é acintosa. Trata-se de convite explícito ao eleitorado a que cooneste uma farsa, descrita com requinte. Segundo membros da Executiva do PT, o indicado terá que ser leal e limitar-se a ser o intermediário da palavra de Lula. Na campanha, dirá que todas as suas decisões serão decisões de Lula. Ora, jamais um candidato das forças populares teve a ousadia de se apresentar como boneco falante. As declarações, transcritas pelo jornalista Luiz Nassif, não foram contestadas.

Dilma Rousseff não foi porta voz de uma pessoa, mas de um projeto de nação. Talvez por isso leia-se em documentos pró-petistas, além de proclamado abertamente em conversas, ter sido ela a responsável pelo desastre do impedimento. Acusam-na de recusar ceder a candidatura, em 2014, ao imputado desejo de Lula de voltar ao poder. Na cegueira do descontrole, a oligarquia do PT não percebe a extensão do insulto com que recompensam a dedicação às causas populares de pessoas íntegras, de respeitabilidade independente de partidos, cujos nomes circulam como possíveis indicações de Lula. Na visão da Executiva do Partido dos Trabalhadores, seriam simplórios candidatos a moços de recado.

Causa amargor reconhecer a vitória dos reacionários curitibanos na tarefa de reduzir a histórica figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à de um obsessivo costureiro de futricas eleitoreiras e justiceiro de medíocres ressentimentos. Só um vírus de paranoia, inoculado pelas estrambóticas sentenças de Sergio Moro, explica o sacrifício de “leais” quadros partidários, como requer a Executiva, buscando, não a vitória, mas a derrota de supostos adversários. Por isso, mas não só, causa embaraço assistir Lula, sempre incorporado como um brasileiro comum, ignorado pelo poder elitista, anunciar em transe a própria transmutação em “ideia”, diante de enorme multidão, ali em apoio a um dos seus, pessoa de carne e osso, mortal como todos nós.

Mas Lula não é uma ideia, Lula é um brasileiro preso injustamente, vítima de notória perseguição política, e ao qual se castrou o direito de participar da vida pública. Razões mais do que suficientes para receber solidariedade ativa, não submissa, dos democratas socialistas e liberais. Restaurar a isonomia política no país, todavia, requer a derrota do continuísmo golpista nas eleições de outubro. Negligenciar a necessária vitória eleitoral dos democratas não equivale à celebração de uma derrota por ser moralmente reconfortante à facção islâmica do petismo. O custo real da derrota será exorbitante, inclusive para os moralmente extasiados.

A circunstancial ingratidão brasileira com um de seus maiores nomes não lhe acrescenta direitos além daqueles, cotidianamente feridos, de que dispõem brasileiros e eleitores comuns. Ser o arquiteto de uma estratégia, conforme vendida ao eleitorado, mas acobertando uma ópera, foi surpreendente; tê-la proposta ao eleitorado por “postes” partidários, uma ignomínia; tratar os militantes de primeira linha como abúlicos, um erro brutal. Lula comprometeu seriamente o descortino de estadista que possuiu enquanto um brasileiro homem comum. Vença ou perca a eleição, através de um mamulengo, Lula, o grande, sucumbirá ao nefasto projeto de Curitiba: não será mais um brasileiro comum; apenas um político comum.

ÚLTIMAS PALAVRAS

Segundo resultados do Paraná Pesquisas registrados no TSE (SP-05341/2018 e RJ-o6304/2018), obtidos, respectivamente nos dias 3 e 14 de julho, Jair Bolsonaro obteve 26,6% dos votos contra 25,5% de Lula, no Rio de Janeiro. Empate técnico. Em São Paulo, Bolsonaro aparece com superioridade estatística de 24,3% contra 21% de Lula. Ainda não chegou o momento em que pesquisas eleitorais façam sentido para mim. Publico esses dados para ilustração dos dirigentes do Partido Paulista dos Trabalhadores.

LAVA JATO ELEITORAL

O momento sucessório expõe a vulnerabilidade do regime presidencialista às aventuras golpistas. A democracia requer o reconhecimento formal da vitória de um candidato pelo adversário derrotado. O formalismo não é apenas protocolar, mas indicador de que as instituições continuarão a funcionar com a plena cooperação (mesmo que na oposição) do lado perdedor. Talvez o maior número de crises com desenlace antidemocrático na América do Sul tenha por origem a recusa do derrotado a reconhecer a legitimidade do pleito. Não se trata de moléstia tropical, contudo. Entre outros não tão frequentes exemplos em países considerados estáveis, agora mesmo Donald Trump não se cansou de anunciar recusa prévia a outro resultado que não o de sua vitória. Possivelmente um blefe, e improvável que o estamento político norte-americano o acompanhasse se não o fosse. Mas os minutos entre o anúncio do vencedor e o reconhecimento público da derrota são os minutos em que a democracia fica em suspense; mesmo nos Estados Unidos.

Houve no Brasil minutos de alta tensão depois da vitória de Juscelino Kubitschek, com subsequentes e frustradas tentativas de invalidar o resultado por militares inconformados. Depois de mais de meio século, atravessamos a turbulência gerada pela bem sucedida trama de Aécio Neves, imediatamente transformada em sólido bloco político-midiático, desdobrada em impedimento da presidente Dilma Rousseff. No instante atual, não só a perspectiva da própria eleição desagrada a muitas figuras do atual condomínio como a condução do processo pré-eleitoral se faz por mal traçadas linhas, com cerceamento de políticos por razões altamente controversas e sussurros de que certos resultados seriam inaceitáveis. O momento de confusão de identidade envolvendo o Judiciário, especialmente as togas maculadas do Supremo Tribunal Federal, adiciona balbúrdia às suspeitas sobre a solidez das instituições.

Supondo ultrapassado sem estilhaços o desafio eleitoral, aí será a vez da prova dos nove da Lava Jato. Nenhum democrata aceita a hipótese de que as investigações sejam interrompidas. Ao contrário, ao longo de toda essa escavação espera-se o aparecimento de formas constitucionais de manter o Estado brasileiro, em todos os seus níveis, submetido a vigilância preventiva e reparadora de atentados à economia nacional. Por sua própria natureza, a demorada condução desse processo não pode permanecer em mãos de personagens claramente preconceituosos e seletivos, arbitrários e desafiadores dos cânones de normalidade da execução judiciária. Resultado e alimento da volubilidade e complacência do Supremo Tribunal Federal, o aparato envolvido nos absurdos cometidos por instâncias do judiciário, por agentes do Ministério Público e da Polícia Federal, há que haver imediatamente pós-eleição uma reformulação a jato do pessoal e das regras de conduta da investigação. Ou isso ou o novo presidente, por mais que privilegiado nas urnas, não governará com autoridade e autonomia.

Os partidos interessados deveriam mostrar ao eleitorado que o problema das eleições inclui avaliação sobre que candidatos teriam disposição e convicção democrática para colocar a Lava Jato a serviço do tesouro da nação, e não aos interesses de uma coalizão de conservadores.

A SEDUÇÃO DA TIRANIA

A eleição presidencial de 2018 esteve ganha pela oposição enquanto a única referência dos conservadores era a associação com o monumental desastre de Michel Temer. Hoje, “Michel Temer” virou espantalho a ser inflado e agitado durante a campanha eleitoral. Mas não está claro se o eleitorado votará contra os conservadores por sua conexão ao golpe parlamentar ou se os favorecerá na renovada expectativa de derrotar um candidato, imbatível há quatro disputas, sustentado nuclearmente por PT, PSB, PDT e PC do B. Hoje, dilacerou-se o conjunto quatro vezes vencedor: o Partido dos Trabalhadores, hegemônico, não contará com os votos unânimes dos partidos que sempre o apoiaram e nem mesmo com a totalidade de seu próprio eleitorado. Hoje, a nuvem da política mudou drasticamente de silhueta.

Depois de sucessivas derrotas jurídicas e tímida resposta dos movimentos nas ruas, o PT iniciou o afastamento da realidade com a campanha autodestrutiva de que uma eleição sem Lula seria fraude. Não registrou a indiferença do aparato judiciário e policial às ralas manifestações de adesão nas grandes cidades, adotando o contraditório movimento de negar legitimidade às decisões da justiça e a ela recorrer, confiando no nobre critério de neutralidade dos operadores. Parecia agir na presunção de que ou as críticas contra o judiciário convinha como propaganda ou de que conseguiria persuadi-lo pela força dos argumentos.

As acusações da esquerda contra o Judiciário, contudo, têm granítica procedência. Infrações e arbitrariedades jurídicas fazem parte do consenso que inclui a avassaladora maioria dos partidos políticos, o eficaz mecanismo do sistema globo de informação para iludir a opinião pública, todos os órgãos de representação do capital e, por fim, a maioria do Judiciário, extensamente comprometido com aberrações jurídicas desde o julgamento da Ação Penal 470. E a cláusula pétrea do golpismo consiste em impedir o retorno da centro-esquerda ao circuito de poder político. Não se trata, aqui, de frívolo recurso de retórica partidária, mas refletido juízo sobre a dissimulada conspiração que o caricato impedimento de Dilma Rousseff desnudou.

Depois de reconhecido o vazio das ameaças de que o MST, substituindo a já clara impotência da CUT, ocuparia cidades e praças contra as arbitrariedades de Sergio Moro, a discussão sobre eventual resistência à ordem de prisão elevou os dirigentes petistas a superior patamar de desvario. Em seguida ao que jamais aconteceria, a prisão de Lula, o roteiro delirante aproveitou a solidariedade à indiscutível vítima de perseguição política, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, convertendo-a, por intimidação, em inaceitável culto à personalidade de um irreconhecível candidato presidencial Lula.

Hoje, há um Lula indulgente com o totalitarismo dos diretores do PT, da CUT, do MST, transtornado em fanatismo em muitos militantes, e candidato que mantém refém grande parte das forças populares. Mais preocupado em derrotar competidores em seu próprio lado do que impedir a vitória da reação. Todos os quadros do PT e partidos próximos, além de personalidades historicamente admiradoras do extraordinário ex-metalúrgico, têm sido apresentados a um enigmático Lula, messiânico e expropriador da vontade autônoma das forças populares. Antes, o destino de Lula se associara ao destino dos pobres; hoje, Lula pretende que o destino das massas se associe ao seu, aprisionado a um combate mesquinho contra um personagem nanico – o juiz Sergio Moro. Os democratas esperam que o preço não seja a vitória da reação, com o encarceramento real da população pobre a seu destino miserável.

CIRO GOMES E A LAVA JATO: UMA DÚVIDA ESSENCIAL

Sempre que perguntado se é a favor da Lava Jato o pré-candidato Ciro Gomes responde com um peremptório “sim”. Nem a pergunta nem a resposta são sérias. Os entrevistadores cumprem um protocolo sem precisar o objeto da pergunta, mas a resposta do pré-candidato merece escrutínio. Em seus inícios, a Lava Jato indicava, para uns, sério e inédito combate à corrupção “sistêmica”; para outros, armadilha jurídica para destroçar o PT e seu líder máximo, Lula. Fosse lá o que fosse hoje não é, exclusivamente, nem uma nem outra coisa, exceto para ingênuos ou distraídos entrevistados. Ciro Gomes também não é ingênuo ou distraído.

Único dos candidatos a discutir claramente parte de um programa de governo, Ciro expõe de modo consistente o que considera a principal agenda dos problemas brasileiros, dá sua explicação para a origem deles e costuma descreve-los quantitativamente, quando possível, o estado em que se encontram, e as medidas que tomará como presidente. Não se encontram contradições entre as entrevistas e palestras vindas a público. O eixo das propostas é, naturalmente, a economia, mas conviria ser igualmente articulado sobre temas como saúde, educação, segurança pública, meio ambiente, ciência e tecnologia e, neste, o impacto da automação em países como o Brasil, faminto por empregos de modestos requisitos especiais. Com a franqueza que advoga e debate, seu peremptório “sim” à Lava Jato é inaceitável sem maiores explicações.

À parte os notórios benefícios das investigações sobre corrupção e corruptores, de há muito a Lava Jato tornou-se algo muito mais complexo do ponto de vista judicial, político e constitucional. Se a acusação de perseguição ao PT deixou de ser exclusiva, apesar dos notórios esforços de Curitiba, para assim mantê-la enquanto foi possível, decisões sobre instâncias de julgamento de políticos do PSDB não têm sido isonômicas em relação aos políticos do PT e de outros partidos. Os vazamentos seletivos durante a fase mais intensa da exposição dos então apenas alegados crimes dos políticos petistas, que desapareceram depois que as investigações incluíram outras legendas e personagens, a escuta ilegal da conversa telefônica entre Dilma e Lula e sua divulgação, a condução coercitiva de Lula, abortada em seu objetivo de transporta-lo secretamente a Curitiba, as prisões preventivas e relatos críveis de que sejam usadas como eficaz tortura, e não cabe considerar o termo excessivo, o espetáculo de péssimo gosto e educação do evangélico Deltan Dallagnol e seu powerpoint, fundado, segundo confessou, em “convicção”, são algumas das peripécias que fazem parte integral da “Lava Jato”. O pré-candidato Ciro Gomes é favorável a isto?

Bem entendido, cidadão de posse de todos os direitos civis e políticos assegurados por nossa Constituição, Ciro Gomes tem absoluta autonomia para decidir o que apoiar ou combater.  Mas, como pré-candidato à Presidência do Brasil, uma resposta automática ou meramente protocolar a pergunta de tantas implicações ofende a todos aqueles cidadãos de bem, intolerantes da corrupção, mas do mesmo modo intolerantes a concepções preconceituosas e corrompidas do exercício do poder, seja judiciário, econômico ou político. Há dúvidas sobre o que pensa Ciro Gomes em matéria de arbitrariedades pessoais.

COINCIDÊNCIAS POLÍTICAS NA DISPUTA PELO BRASIL

Se o passado contém dicas sobre o futuro, então o candidato a presidente escolhido por Lula sairá do PT paulista. A circulação de nomes como Celso Amorim, Jacques Wagner e Patrus Ananias faz parte da usual dissimulação política. Na hora H, Lula indicará um quadro do PT, provavelmente Fernando Haddad, não havendo muitos personagens disponíveis para a função de porta-decisão de Lula, caso eleito.

No passado, em todas as eleições presidenciais decisivas havia pelo menos um paulista, nativo ou naturalizado. Essa regularidade só foi em parte alterada nas eleições de 2014, disputadas por Dilma Rousseff e Aécio Neves. Mas, lá estava Michel Temer, vice na chapa de Dilma Rousseff, indicado por Lula.

Recapitulando: em 1989, a final se deu entre Fernando Collor, alagoano, e Lula, paulista naturalizado. Naturalizado significa submissão à síndrome de Estocolmo, em que o dominado absorve os valores do dominador. Na naturalização, o “estrangeiro” reconhece e resiste à discriminação interna, mas defende os interesses do dominador no trato com outros “estrangeiros”. Nas duas eleições presidenciais da década de 90 tivemos a singular disputa entre dois naturalizados: Fernando Henrique Cardoso e Lula. Em 2002, Lula e José Serra representaram, obviamente, os naturalizados e os nativos; em 2006, repetiu-se o embate entre um naturalizado, Lula, e um nativo, Geraldo Alkmin. Em 2010, finalmente, vinte e um ano depois da intromissão de Fenando Collor no arranjo, uma “estrangeira”, Dilma Rousseff, competiu com o nativo José Serra. Em 2014, na sétima eleição presidencial direta, pós-ditadura, os dois candidatos eram “estrangeiros”: Dilma Rousseff e Aécio Neves, mas ainda com a reincidência de Michel Temer na vice de Dilma.

Poderia ser uma rara coincidência, mas, como já explorei em texto acadêmico, coincidências exigem a coincidência de um terceiro autenticando a coincidência original. Não parece ser o caso da série presidencial. As condições econômicas variaram de modo impactante na economia, do vencedor Collor ao derrotado Aécio, à agitação política precedendo o impedimento do alagoano seguiu-se o relativo marasmo dos governos do naturalizado
Fernando Henrique, continuado pelo marasmo dos mandatos de Lula. A explosão da AP470 em meio ao primeiro mandato não ultrapassou o reino jurídico, sem consequência política imediata: Lula foi reeleito em 2006. O primeiro mandato de Dilma Rousseff, que derrotara o nativo José Serra, foi crescentemente controverso e, talvez, tenha ajudado à escolha do estrangeiro Aécio Neves como desafiante em 2014.

Lula aproveitou muito bem a retomada do dinamismo econômico internacional e, graças a isso, atendeu de forma extraordinária à sua audiência, digamos, “estrangeira”, construindo extensa rede de proteção social aos pobres e desvalidos. Ao mesmo tempo, para desespero de seu vice, o industrial mineiro de Alencar Gomes da Silva, a livre movimentação concedida ao sistema financeiro, concentrando-se em São Paulo, consolidou-o como o agente mais predatório da economia brasileira, e não como sócio, mas achacador da indústria. As tentativas desastradas de Dilma Rousseff para reverter essa equação desaguaram em seu impedimento, organizado e conduzido por seu vice paulista, Michel Temer.

É bastante provável que Lula indique o nativo Fernando Haddad como candidato do PT à presidência, mesmo que, eventualmente, favorecendo a vitória do conservadorismo de Geraldo Alkmin, caso este ressurja de entre as cinzas.

ELEIÇÕES E CLÁUSULAS CONDICIONANTES

Faz-se eleição porque não há nada mais indicado para substituir pacificamente os governantes. Depois, as coisas podem melhorar ou piorar, mas em caso algum ficarão paradisíacas, até porque o melhor para alguns costuma ser o purgatório para outros. Os candidatos a governar sabem disso, quero dizer, os candidatos responsáveis, e, em geral, moderam as promessas e advertem sobre eventuais custos da democracia. Mas os eleitores esquecem, não importam desapontamentos antigos. Mesmo os beneficiados por administrações anteriores só relembram o bem estar da chegada, raramente o tempo e frustrações que a antecederam. Mas faz-se eleição, de qualquer modo, porque não há oferta mais atraente em circulação. Ou eleição ou pior.

Eleições maculadas por condicionalidades são eleições constrangidas, vide todas as disputas nas eleições proporcionais durante a ditadura. Mas a participação do eleitorado não se deixou influenciar automaticamente pela extensão do constrangimento. Se o total de abstenções, votos brancos e nulos alcançaram a 46% do eleitorado, em 1970, em 1974, ainda com todos os constrangimentos impostos aos exilados, presos, foragidos, cassados e mortos pela ditadura, o total da recusa às eleições reduziu-se a 36,3% do eleitorado. Os resultados favoreceram em muito à oposição, destruindo o mito de que a população manifestava apoio ao regime, e alimentando as pressões por via parlamentar para a demissão do estado de exceção. Eleição, mesmo constrangida, é sempre melhor do que nenhuma eleição. E acrescentar condições especiais para votar é claramente antidemocrático.

Muito embora a profusão e confusão de candidatos submetidos ao eleitorado, em 1989, o somatório de abstenções, votos brancos e nulos na primeira eleição direta à Presidência da República não ultrapassou os 20,7%. Até por isso foi inesperado não haver incomodado a ninguém, nas eleições de 1998, segunda vitória em primeiro turno de Fernando Henrique Cardoso, que a soma de abstenções, nulos e brancos tenha escalado o até hoje imbatível pico de 40,2%%, superior à eleição autoritariamente constrangida de 1974.  Não houve contestação alguma à legitimidade dos resultados.

É heterogêneo o conjunto de não votantes. Uns por indiferença crônica; outros tantos acreditam que, naquela eleição, seu candidato não tem chance de vitória; muitos porque, descrentes, não esperam recompensa alguma independente de quem seja o vencedor em qualquer eleição; e, enfim, os não participantes “ativos”, os que avaliam que, no caso específico, a mais significativa participação consiste em não votar ou anular o voto. Interpretar qualquer taxa de alienação eleitoral (abstenção+brancos+nulos) segundo um padrão único serve a convicções ideológicas, mas à deriva da complexa rede de causalidades em operação. A reflexão mais acurada sobre esse “fuzzy set”, esse conjunto nebuloso de razões, tem sido a de Luiz Inácio Lula da Silva quando em todas as suas campanhas adverte o eleitorado de que não votar significa conceder a outrem o direito da escolha eleitoral. Não votar implica, automaticamente, desistir de, com seu voto, neutralizar um voto contrário. Em outras palavras, favorece o adversário, corresponde à decisão de entregar a terceiros a vitória que desejaria para seu candidato preferencial ou próximo. Eleição ou rendição ao adversário? Não existe o nada eleitoral.

A DIREITA DA ESQUERDA

Se Jair Bolsonaro é uma aberração política, como acredito, então dificilmente representa ou virá a representar os conservadores. Nem mesmo os direitistas radicais acompanhariam inteiramente o breviário bolsonariano, catálogo de universal excomunhão de pecados e sem reconhecimento de outra virtude que a de carcereiros e carrascos. Nenhuma indicação sobre a cidade virginal a construir. Entendo seus inabaláveis 19 a 20% das intenções de voto como expressão de um eleitorado lumpen, constituído basicamente por recrutados a duas categorias de cidadãos: motoristas de taxi e militares na reserva. A estes grupos com identidade própria se agrega parte dos crônicos trabalhadores precarizados, não os atuais desempregados com histórico associativo. São os ajudantes de obras em constante rodízio de local de trabalho; os ambulantes, pagando dízimos a cafetões civis e policiais; os biscateiros, os ressentidos e traumatizados pela vida. Nem sempre aderem a candidatos mercuriais, mas quando votam normalmente, o fazem por motivos estranhos. Com frequência atribuem ao escolhido opiniões que estes jamais sustentaram. Eleitores lumpen são, caracteristicamente, mono temáticos, opacos à leitura ou audição de nada além do que lhes desperte a fúria redentora. Eles são Bolsonaro.

Sou cético a respeito do futuro eleitoral de Jair Bolsonaro. Os conservadores estão presos à racionalidade da produção mercantil, guardiães das algemas que constrangem o Estado, ciosos de que os timoneiros cumpram sem sobressaltos o roteiro consagrado na legislação sobre a propriedade. O trauma Jânio Quadros já caía no esquecimento quando Fernando Collor fez o obséquio de beliscar a consciência de classe. Creio que liberais e conservadores votariam até em Lula, se candidato fosse, em confronto decisivo com tamanha e trovejante aberração uniformizada.

Por isso, liberais, conservadores e convictos direitistas ainda não têm candidato. Não é bom. Que eu me recorde, a representação do capital nunca perdeu por wo, por recusa ao combate. Bom lembrar que a direita detém o monopólio de um recurso diabólico: o golpe de Estado. Golpes de Estado contemporâneos dispensam a iniciativa armada, usufruindo do brilhantismo de seus advogados, virtuosos em escrever em prosa constitucional a mais deslavada pornografia política. O estoque de artifícios é elástico, sedutores o suficiente para persuadir os profissionais da força que conquistamos o máximo de harmonia possível, dentro da lei. Mas eis que lá, em hora desprevenida, um togado poliglota dispara uma citação de Leibniz e, pronto, caímos em democracia ainda melhor, aquela em que, em nossa cegueira, seremos governados pela vanguarda iluminada dos sem voto.

Melhor aparecer um candidato conservador legítimo, mas tolerante da democracia, com legitimidade para reconhecer e aceitar eventual derrota.

POLÍTICOS LAICOS

Na rota entre BR-2002 e BR-2018 operou-se a transformação de um país em que todos ganhavam em outro no qual todos perdem. Em 2002, após três tentativas, Lula conseguiu persuadir o eleitorado de que os planos econômicos fracassariam enquanto não houvesse significativa promoção social dos pobres e muito pobres. A desigualdade extrema permitiu que a primeira das várias medidas com modesto gasto público, o programa bolsa-família, proporcionasse sensível aumento na renda familiar.  O impacto no consumo aliviou parte da capacidade ociosa da indústria voltada para consumo de massa sem massa para consumir. Criticar o modelo como consumista é o mesmo que se irritar com o guarda-chuva depois do temporal.  Ademais, o consumismo produziu tremores na estratificação social, origem do ódio de parcela da classe média a Lula, responsável pelo forçado convívio com a antiga laia de miseráveis.

A rede de proteção tecida durante os mandatos de Lula exigia reformulações institucionais, resistentes a espasmos de crise econômica e às iniciativas demolidoras de conservadores homicidas. Essa cautela não foi observada por Lula e nem por Dilma. Mas à chegada impetuosa da crise internacional, Lula, em memorável discurso de 2008, recomendou à população continuar comprando, consumindo. Foi um de seus grandes momentos, adiando os efeitos da catástrofe global. A Dilma caberia preparar o país para transição a uma democracia de massa, tecnologicamente atualizada. Nesse trecho deu-se o assalto ao mandato da presidente.

Não participo do coral que atribui a Dilma Rousseff inteira responsabilidade pelo desastre econômico e político sucedido. À época, programas de aceleração do crescimento geravam plataformas para importante salto na economia. Entre outros erros de cálculo, porém, o recurso a desonerações fiscais supunha vigorosa contrapartida do empresariado, sem instrumentos que a conferissem e avaliassem. Como notório, o empresariado adorou o aumento na margem de lucros e só empresou, mesmo, o golpe parlamentar de 2016.

Depois do atual furacão reacionário, completou-se a inversão da prioridade de 2002. Hoje, é indispensável criterioso planejamento que permita o combate eficaz à miséria. Sem severa higiene institucional, o país verá consolidar-se um hiato intransponível em relação às economias tecnologicamente revolucionadas do século XXI. Aproveitar oportunidades nessa corrida impõe admitir-se que nenhum dos grandes partidos brasileiros, isoladamente, dispõe de conhecimento e material humano para tanto. Sem roteiro programático mais ou menos consensual entre os partidos, não haverá futuro promissor para o país, condenado à mediocridade e à indistinção no enorme bloco das nações colonizadas sem a necessidade de ocupação militar. Assunto para políticos laicos, sem pretensão à canonização em vida.

QUEM SE IMPORTA COM LULA?

A direita festejou a retumbante derrota do PT nas eleições municipais de 2016. À esquerda, volta e meia vítima de lavagem cerebral, líderes e porta vozes autorizados ou não deram início a desencontrada autocrítica. Como de hábito, o que começa como autocrítica termina em busca de bodes expiatórios. A perseguição da Lava-Jato (inegável) e a covarde difamação de Dilma Rousseff, incompetente, segundo líderes do PT, explicavam os alegados desastrosos resultados eleitorais. Só que não foi bem assim. A fragilidade dos analistas do partido os torna presa regular do noticiário conservador, daí a frequente adoção de estratégias incoerentes, em luta diária contra as manchetes do Jornal Nacional e os editoriais da Folha de São Paulo. Neste particular, operam como inocentes úteis da direita.

Há uma associação bastante sólida entre número de candidatos apresentados pelos partidos e a probabilidade de vitórias: quanto maior o número de candidatos, maior a proporção de vitórias conquistadas. A associação não vale, obviamente, para partidos concorrendo com um ou dois candidatos, coligados a partidos grandes, e que, beneficiados pelo sistema proporcional adotado, obtêm 100% de aproveitamento.

Na disputa pelas prefeituras, em 2016, o Partido dos Trabalhadores perdeu algo mais do que 50% das cadeiras conquistadas em 2012. Este foi um dos resultados que levou a direita às gargalhadas e lideranças da esquerda a espargir cinzas pelas cabeças alheias. Em grande parte, contudo, a perda se explica por correspondente fuga à competição. Em 2016, o PT registrou 1004 candidatos prefeitos contra os 1799 registrados em 2012, ou seja, uma redução de 44% na lista de concorrentes. A sangria na mobilização de competidores, esta sim, teve impacto desastroso no desempenho do partido.

O mesmo ocorreu na disputa pelas vereanças. Em 2016, o Partido dos Trabalhadores concorreu com uma absurda redução de 45% no número de candidatos, em comparação com 2012. Não deu outra: conseguiu, em 2016, menos 46% de vitórias das conquistadas em 2012. Não há comprovação de que o eleitorado petista tenha rejeitado o partido. O PT perdeu o que sua liderança pediu para perder.

Ser pautado pela direita significa ou ficar intimidado por ela – o que ocorreu em 2016 – ou tomar decisões embirradas com a propaganda midiática. Antes de se arriscar a resultados catastróficos em 2018, seria de toda conveniência que alguns exaltados ou compreensivelmente emocionados com a real perseguição ao partido e ao seu grande líder, fossem capazes de separar a solidariedade que não lhes tem faltado por todas as fatias do bolo à esquerda, da necessidade crucial de formular a estratégia com maior probabilidade de sucesso em outubro próximo. Essa decisão requer abertura negociada em torno de programas de governo. Os nomes surgirão naturalmente de um acordo de tal tipo.

Há uma reflexão à qual ninguém, no lado da esquerda, deveria fugir: é absolutamente certo que sem o apoio de Lula, uma vitória da centro-esquerda ficaria seriamente ameaçada; porém, dependendo do candidato, mesmo com o apoio de Lula, a vitória também será improvável. Dedicados petistas, fora dos dogmáticos discriminadores, não têm censura mental e podem admitir que, sem Lula é impossível ganhar, mas com Lula é possível perder. Em qualquer dos dois casos, a vítima maior será o próprio Lula, que está preso e, por enquanto, condenado. Os estrategistas do ou Lula ou nada continuarão soltos.