UM SEGUNDO TURNO DE CACOS

Difícil vislumbrar onde Fernando Haddad desencavará votos para superar a diferença com  que Jair Bolsonaro o derrotou em sete de outubro. Dentro da margem de erro, os primeiros números da pesquisa Datafolha (10/10) indicam a mesma distância estampada ao final do primeiro turno: dezesseis pontos percentuais em favor de Bolsonaro. O segundo turno não promete uma nova eleição; antes, a projeção do primeiro turno, com vitória do candidato sobre o qual a população nada sabe além de discursos e declarações sem lastro na realidade. Governar não se resume a distribuir armas à população, recusar apoio do Estado a instituições de promoção social ou leiloar o patrimônio público. Na realidade, nem creio que possa fazê-lo, a menos de um autogolpe preventivo, no País em que os oximoros salvam a face da ilegalidade. Há desastres bem mais à mão e mais ao sabor dos reacionários nacionais e internacionais.

Na ponta do lápis, o Guilherme Boulos, o PCdoB, incapaz de atender às exigências da nova lei eleitoral, e os desgarrados do PSB, não têm votos. A esperança de cooptar os marinistas residuais, além de infundada, acrescentaria praticamente nada, uma votação inferior à do cabo bombeiro. A ampla frente democrática se resumirá a manifestos, declarações de artistas e reuniões de autoajuda. O departamento de propaganda remunerada insistirá na divulgação de pesquisas incompetentes. Provavelmente, inútil.

Só quem dispôs de votos até o fim do primeiro turno, além de Bolsonaro e Haddad, foi Ciro Gomes. Ocorre que, ao contrário do que os fanáticos difundiram, Ciro não é um coronel, tampouco um caudilho, e os que nele votaram decidirão como fazê-lo, agora, no segundo turno, alheios aos protocolares acordos que PDT, PT, PCdoB e PSB acreditam tenham significativo valor. Infelizmente, não têm quase nenhum. E os sinais dos eleitores ciristas não parecem amistosos. As projeções dos institutos de pesquisa apontavam reiteradamente vitória de Ciro sobre Bolsonaro no segundo turno. Mas Ciro foi derrotado pelo PT no primeiro.

Fernando Haddad buscará raptar votos de Jair Bolsonaro, eis o seu destino. Para tanto, fará todas as promessas exigidas pelos conservadores instalados nos bancos e nas empresas. Apresentada pelos violentos centuriões petistas, para variar, como genial estratégia, na realidade inverterá as ênfases do Lula de 2002: ao contrário de acenar à direita, apoiado em sólido projeto de resgate dos pobres e miseráveis, Haddad ofertará joias preciosas, reservando ao antigo povo de Lula miçangas de consolação. E Lula, preso, conhecerá, se tanto, as costas dos seus fieis bajuladores. Que o diga José Dirceu.

Ganhem ou não, Jair Bolsonaro jamais escapará do século XIX, reacionário em costumes e avesso aos trabalhadores na economia; Fernando Haddad enterrará a esquerda petista na decadência do século XX, e com ela a pompa da hegemonia.

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GÊNESE DOS NOVOS PARTIDOS DA ORDEM: O BRASIL NA DANÇA MUNDIAL

Automação, segunda idade da máquina ou quarta revolução industrial, o fenômeno é um só: a expansão tecnológica envolvendo nanotecnologia, novos materiais, crescimento exponencial da capacidade de armazenar e operar gigantescas bases de dados produz um corte irreparável com a revolução industrial clássica. Corolário da ruptura, enquanto a revolução industrial multiplicava oportunidades de empregos e congregava operários no mesmo local de produção, favorecendo a solidariedade, a subversão digital é adversária do trabalho e estimula isolamento, individuação do produtor e contratação personalizada dos serviços.

Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee são otimistas quanto à capacidade de “um tempo de brilhantes tecnologias” superar as dificuldades nascentes, sem omitir que durante a clássica revolução industrial as recessões eram seguidas de recuperação dos níveis de emprego e nas antigas ocupações, ciclo ausente, agora, depois das ondas de inovações poupadoras de mão de obra. A oferta de empregos não recompõe numericamente os lugares perdidos e, sobretudo, faz com que vários tipos de ocupação desapareçam durante a transição: menos pessoas voltam ao trabalho, por falta de número e/ou espécie de ocupação e com níveis salariais abaixo dos anteriores (The Second Machine Age – work, progress, and prosperity in a time of brilliant technologies, 2014).

Em pesquisa oposta à concepção de que o problema seria temporário, Martin Ford investiga consequências efetivas da revolução digital (ele próprio fundador de empresa de desenvolvimento de software no Vale do Silício), e avalia não serem a educação e o adestramento de trabalhadores respostas suficientes ao naipe de desafios do futuro imediato. Essa a terapia que, alegadamente, daria solução às exigências de um modo de produção com elevado consumo de conhecimento técnico. Ademais, não são as ocupações de baixa qualificação as únicas ameaçadas, mas também o setor de serviços e até o mercado de profissionais altamente qualificados. “Nossas inovações não têm por objetivo tornar os empregados mais eficientes; a meta é dispensá-los completamente”, declaração do fundador de uma empresa de robótica, citado por Ford (Rise of the Robots – technology and the threat of a jobless future, 2015).

O ímpeto inevitável do progresso da automação está cruamente sumariado neste propósito: retirar o trabalho fora da equação econômica. “Removendo os humanos fora da equação” é titulo de capítulo escolhido por Douglas Rushkoff para desenvolver a tese, vastamente documentada, de que o sistema econômico deixa de adquirir valor (renda) pela via do atendimento às necessidades e desejos dos consumidores, com base na competição entre empresas singulares, passando a condicionar necessidades e desejos dos consumidores, extinguindo na prática o livre-mercado. Grandes corporações e conglomerados, tipo Google, Facebook, Amazon, Apple e Microsoft, operam, via globalização, no universo dos winner-takeall-markets. Isso é, mercados monopolistas em que não há condições de competir com o vencedor, que ocupa todo o espaço econômico disponível. Na ausência de informações alternativas, são as corporações que moldam as necessidades e desejos dos consumidores. Quantos são os leitores no mundo, hoje, que pautam suas escolhas exclusivamente pelo cardápio que lhes é oferecido diariamente pela Amazon? (Throwing rocks at the Google bus – how growth became the enemy of prosperity, 2016). Em conexão com Thomas Piketty: dinheiro faz dinheiro mais rápido do que as pessoas e companhias conseguem criar valor. E essas não são deformidades sanáveis por programas emergenciais aos desvalidos de sempre ou aos desalentados modernos, não obstante a necessidade de mantê-los enquanto se altera com radicalidade a engenharia do mundo do século XX.

A extraordinária capacidade de armazenar dados e deles extrair padrões e correlações opera como uma das principais ferramentas para promover a transformação de mercados competitivos clássicos em winner-take-all-markets. Concebido, restritivamente, para indicar competição em que as diferenças em prestígio e renda entre o primeiro e segundo é abissalmente desproporcional comparadas à diferença da qualidade real entre os dois (exemplo recorrente são as competições esportivas: natação, maratonas, etc.), o conceito é apropriado para a extinção da competição entre empresas de relativamente igual capacidade e a instauração de mercados de vencedores únicos. A revolução digital equivale à promoção sistêmica do desaparecimento da ordem industrial, anciã de dois séculos, pela ordem digital e automatizada das gigantescas empresas que, sob a aparência de democratização de informação, se apropriam de todos os fluxos alternativos e passam a arbitrar o leque de escolhas a nossa disposição (Robert Frank e Philip Cook, Te Winner-take-all-society, 1995; Scott Galloway, The Four – the hidden DNA of Amazon, Aple, Facebook, and Google, 2017; Franklin Foer, World Without Mind – the existential threat of big tech, 2017).

Todavia, para o fundador do Forum Mundial, Karl Schwab, o futuro é o arco-íris prometido, desde que reconhecidos e superados os obstáculos com origem na revolução industrial anterior, na ordem da economia e na ordem da governança. A meta: uma sociedade automatizada ao extremo, com trabalhadores isolados mantendo currículos disponíveis em nuvens de informação, e que aí serão recrutados para serviços pontualmente definidos, sem obrigações posteriores entre o cliente e o técnico solicitado. Segundo Schwab, a autonomia do trabalhador será total, teoricamente livre para atender ou não ao recrutamento, em função de sua agenda de solicitações ou de lazer (The Fourth Industrial Revolution, 2016). O relativamente pequeno volume (184 páginas) comprime com eficiência as principais propostas de governo, organização social e regras econômicas características do novo mundo, acompanhadas de números destinados a comprovar a incurável insuficiência do mundo da terceira revolução industrial.

Não obstante a construída consistência lógica entre todas as propostas, eu creio que essa obra permanecerá como uma das mais interessantes utopias elaboradas ao início do século XXI, a começar pela premissa de que os desdobramentos da sociedade da automação proverão ocupações distintas, mas equivalentes em número às ocupações destruídas. O autor expõe uma profecia incauta diante de difíceis incógnitas como futuros movimentos demográficos, conteúdos das novas ocupações, divisão social do trabalho e efeitos da produtividade. Quanto ao estilo de governança, um suposto luxo de transparência, de votações por e-mail e outras lucubrações são moderadas por modesta advertência de que todos os instrumentos de boa governança também poderiam ser utilizados malignamente. Mas a relevante e assustadora alternativa não recebe tratamento específico.

Convém registrar que todas as obras citadas, entre várias da literatura pertinente, dispõem de dados e de argumentações sofisticados, aqui resumidos e enfatizando predominantemente a inclinação dos autores em relação ao futuro do trabalho. Por certo, não faltam as utopias de um universo no qual, vistos os patamares de produtividade e organização das estruturas produtivas, a maioria esmagadora de pessoas ficaria ociosa. Contudo, sendo as sociedades de então extraordinariamente ricas, haveria esquema distributivo de renda tão elevada que daria acesso dos ociosos aos bens à disposição no “mercado”. Tal como os navegadores portugueses que, segundo Fernando Pessoa, estando a Índia descoberta, ficaram sem ter o que fazer. Praticamente, uma sociedade de inúteis segundo critérios, se não do século XIX, com certeza do século XX. Registro que, mesmo autores entusiasmados com as promessas da robótica, cultivam certa cautela perante a ideia de sociedades claramente divididas, sem remissão, entre os que trabalham e os que não trabalham, ainda que o desejassem, além da incógnita sobre o próprio sentido existencial do trabalho. Ryan Avent talvez seja quem mais densamente tem refletido sobre os tipos de sociedade que a revolução tecnológica trás embutidas (The Wealth of Humans – Work, Power, and Status in the Twenty-first Century, 2016).

Estudos empíricos sobre as consequências da crise de 2008 têm revelado que a recuperação do desastre corrobora as previsões de redução no número de postos, reconfiguração das qualificações requeridas, o estabelecimento de relações entre empresas e indivíduos, não mais coletividades de empregados, redução dos níveis salariais e, nos países outrora de elevado bem estar social, conflito e gradativo desmanche dos laços de proteção ao trabalho. Os acordos enfrentados pelos sindicatos operários empenham-se em resistir aos ataques a conquistas históricas, antes que lutar por avanços a partir do status quo. O status quo trabalhista, hoje, é a última linha de defesa dos trabalhadores na Alemanha, nos Estados Unidos, na Dinamarca, na Bélgica, na Noruega, enfim, em todos os países de capitalismo avançado nos quais o nível de renda permitia a adoção de políticas de extensa proteção social.

Hoje prevalece a instituição forçada de mercados duais de trabalho – parte dos trabalhadores protegidos pelos direitos antigos, parte fora dos contratos coletivos, isolados, à mercê de ocupações temporárias e salários menores. – etapa indutora da abolição completa da sociedade industrial do século XX. A desorganização da produção e a fragilização das entidades trabalhistas, depois de 2008, proporcionou maior velocidade à difusão tecnológica e assalto ao trabalho, com as consequências negativas mais ou menos previstas. O diagnóstico compreende desde países utilitaristas como os Estados Unidos até as invejadas sociedades nórdicas (Kathleen Thelen, Varieties of Liberalization and the New Politics of Social Solidarity, 2014). Na Alemanha, mas principalmente nos países nórdicos, a estratégia dos atores anteriormente privilegiados – grandes sindicatos de trabalhadores, partidos sociais democratas e corporações econômicas – alteram gradativamente os padrões de coalizões, com a aproximação entre conservadores clássicos, partidos de esquerda e operariado tornado precário, formando associações tácitas em defesa das estruturas do século XX sob os ataques da revolução digital que os ameaça a todos. Embora com reduzida clareza, na Europa, os partidos de esquerda, diante da ameaça de um renascimento fascista, são os novos partidos da ordem decadente.

Esses processos se refletem nos indicadores sociais do mundo todo. A organização The Social Progress Imperative acaba de publicar seu 2018 Social Progress Index, avaliando 51 indicadores de nutrição, habitação, segurança, educação, saúde, usufruto de direitos e inclusão, em 146 países. Grande número deles, mesmo os mais bem colocados historicamente, embora continuando no grupo de vanguarda, exibem piora em alguns escores específicos O Brasil encontra-se na quadragésima nona posição do terceiro grupo de países. A publicação é de fácil acesso, dispensando a enumeração dos diferentes pontos alcançados pelos países e como se comparam entre si.

Termino com a menção de que o Brasil acolhe regiões ainda intocadas pela revolução industrial clássica, outras contemporâneas de nichos equipados com produtos da primeira metade do século XX, e, enfim, de alguns segmentos ingressando na idade digital. É um país composto por retalhos dos séculos XIX, XX e XXI, com populações e líderes políticos ajustados a cada retalho. Prepara-se para iniciar a década dos vinte do século XXI com a talvez definitiva extinção do velho partido da ordem, o PSDB, e a mobilização belicosa do conservadorismo radical, associado aos zumbis remanescentes do século XIX. Na polaridade atual, quem representa o partido da ordem, não obstante a presumida identidade de esquerda? Na melhor das hipóteses, o Brasil está para ser governado por representantes exemplares do século XX, em coalizão defensiva da ordem em decadência. Como propostas, fora os delírios dos zumbis, apresentam promessas de reativação de iniciativas, aprimoradas, sem dúvida, mas impedidas de transgredir o receituário avançado do século passado que, no atual, será a vitamina de sustentação da obsolescência. O Brasil arrisca-se a permanecer um retardado crônico, durante o século XXI, assim como foi um industrializado capenga durante o século XX.

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NO TEMPO FELIZ DE OUTRORA

Ninguém é feliz quando depende de modesta parcela de benevolência governamental para não morrer de fome. O programa Bolsa Família foi um recurso de emergência, a crédito da visão e compromisso de classe do presidente Lula, mas não é virtude para orgulhar país nenhum. A rápida expansão da iniciativa, alcançando milhões de pessoas em dois anos, justifica o prestígio do ex-presidente Lula junto às classes pobres. Do mesmo modo, programas de eletrificação praticamente gratuita nos confins da nacionalidade, distribuição de alimentos e serviços diversos, sem contrapartida financeira dos beneficiados, contribuem para o mérito dos governos do PT e a gratidão, em votos, de que é receptáculo. Mas, só em perspectiva mesquinha do valor integral do ser humano é possível considerar que tenha sido um tempo feliz.

A rede de proteção social brasileira, frágil, como frágil era a população por ela protegida, foi destruída sem dificuldade pela ousadia de golpistas bem sucedidos. Há lições inscritas no âmago desse desastre. Se o rol de políticas sociais e os números dos atendidos recebiam aplausos internacionais, revelavam, pelo avesso, nossa vergonhosa condição civilizatória. Que país é esse no qual incalculável multidão de seres humanos necessita de tão pouco para não sucumbirem à fome? Que país é esse em que enorme contingente de cidadãos só conhece a energia solar, vivendo nas condições pré-industriais da eletricidade ainda indomada? A vaidade partidária cegava e cobria de brocados nossa nudez primitiva.

Uma política social civilizada tem por objetivo tornar-se dispensável com a eliminação da carência que a justificava. Enquanto programas como Bolsa Família e outros proporcionarem doses tópicas de felicidade à miséria da sobrevivência, continuaremos campeões paraolímpicos da justiça social. É provável que nossos bravos campeões paraolímpicos preferissem competir contra os candidatos a campeões nos certames olímpicos. Tal como o pódio por indicadores positivos de justiça social é disputado entre países como a Noruega e a Dinamarca. Em nenhum deles existe Bolsa Família ou Luz Para Todos; eles disputam taças olímpicas.

Enquanto políticos prometerem restabelecer o Programa Bolsa Família como espetacular retorno a um tempo feliz, programa paradigmático da paraolimpíada da justiça social, eles estarão propondo à população não mais do que conformismo com a condição de pensionista unilateral da benevolência do Estado.

Toda política social precisa ser apenas emergencial, cujo destino é desaparecer por inútil, mesmo quando o prazo previsto seja longo. Fazer da política social uma iniciativa crônica, ou monopólio propagandístico de um partido, equivale à confissão de que o alvo mirado pelo benefício não é o ser humano integral, mas o voto de que dispõe. Quanto mais longo for o tempo da paraolimpíada social, maior a recompensa eleitoral de quem a cultiva.

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O PT E NÓS

A maioria do eleitorado em festa pela vitória de Lula, em 2002, não imaginaria que chegaria a 2018 com o PT comprometido por associação com os crônicos predadores da economia popular. A fúria persecutória da Lava Jato, conseguindo encarcerar sem provas um grande líder popular, propiciou a armadura emocional de que se vale grande parcela daqueles eleitores de 2002 para recusar audiência a argumentos críticos ao PT ou a Lula. A discordância política transformou-se em heresia religiosa.

Contudo, é incontroverso que as políticas sociais, aquelas que “colocaram o povo no orçamento”, e de que se orgulham os líderes partidários, surgiram sem afetar a margem de lucro do grande capital. Ao contrário, a expansão dos negócios industriais e bancários adquiriu brilhante dinamismo, à custa dos ganhos da exportação. O mundo absorvia commodities com voracidade pantagruélica e desse fluxo beneficiou-se o governo Lula “sem tocar no lado da receita do Estado”, como admitiu Fernando Haddad, questionado por Ciro Gomes em debate televisionado. Não era pilhéria quando Lula reagia às campanhas contra ele e seu partido com a indagação: por que os ricos não gostam de mim? Lula, o fantástico e implacável intuitivo, nunca captou o conceito de luta de classes, limitado pelo horizonte sindicalista que reduz os conflitos à negociação sobre reposição de perdas inflacionárias.

Cabem aplausos à distribuição da fartura ocasional entre os pobres e miseráveis, posto que, em circunstâncias similares, os governos mantinham a periferia fora da repartição. Mas a “receita que ficou intocável” se refere a políticas de efetiva distribuição de renda, alterando a contribuição proporcional do trabalho e do capital à acumulação econômica. Nem foram os pobres incluídos em programas institucionalizados, resistentes a ataques conservadores quando virasse a maré. Pois a maré virou e em dois anos desmontou-se a rede petista de proteção social.

A expedição de reconquista do poder haveria de considerar os novos parâmetros do conflito distributivo, produtores das desigualdades e da pobreza no século XXI, século da ambição capitalista de desqualificar a relevância do trabalho humano na reprodução da espécie. O PT de hoje perdeu-se na nostalgia de um tempo feliz absolutamente vulnerável, desconhece as razões estruturais do conflito atual, e propõe a mesma estratégia de governo: retomar o realejo do passado, com acenos a medidas que nem são ousadas. Pior: com a mesma fórmula de governança. De um lado, em sociedade com os velhos cupins da economia pública que, em pagamento, depuseram Dilma Rousseff; de outro, com promessa de apaziguamento e pedido de benevolência aos donos do capital. A campanha do PT, hoje, visita escritórios atapetados mais do que amassa barro em porta de fábrica.

Finalmente, os eleitores que promoviam as festas mais alegres e hospitaleiras das cidades, nos idos dos anos 2000, foram substituídos por leões de chácara emocionais, salivando contra alegados heréticos, exatamente como a direita, sem tirar nem por. De concessão em concessão, o PT transmitiu a seu eleitorado o dogma de que não se anda ao lado do povo sem a companhia de ladrões. Isso é falso, mas o novo eleitor petista segue o teólogo medieval Tertuliano: crê porque é absurdo.

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O DRAMA CONSERVADOR (E PROGRESSISTA) DE SÃO PAULO

O provável desastre eleitoral de Geraldo Alkmin e Marina Silva surpreendeu os conservadores com incômoda opção: descarregar os votos em Ciro Gomes ou em Fernando Haddad. Se a presença de Jair Bolsonaro no segundo turno se confirmar, nem mesmo os cálculos de marqueteiros (de centro e de esquerda), especulando com a absorção dos votos de Álvaro Dias, João Amoedo, um naco de Marina Silva e, Deus seja louvado, peregrinos bolsonarianos desiludidos, prometem a presença de Geraldo Alkmin no segundo turno.

Impossível não é, bem como a conquista por Haddad do segundo lugar, embora chegando com atraso às fulminantes previsões dos clínicos em opinião pública. Mas, e se nem Jair Bolsonaro, cujas razões de êxito não são esclarecidas pelos xingamentos recebidos em abundância, e nem Fernando Haddad confirmarem as precipitadas loas à genialidade de Lula, como se comportarão os conservadores paulistas? Restrinjo-me aos paulistas porque nunca viveram, senão em 2014, eleição maldita para todos eles, a tensão de optar por um estrangeiro. Contudo, não obstante os fogos de artifício de todos os analistas de esquerda, a possibilidade de decisão no primeiro turno entre Haddad ou Ciro, contra Jair, não é assunto superado, como tenho lido em petistas e tucanos desesperados, para os quais Haddad aparentemente já realizou a mágica, arrebatando o Nordeste, Minas, Rio de Janeiro e São Paulo, por suposto, além do Acre, Rondônia e Amapá, redutos históricos do PSDB. Pode ser que ocorra, mas não ocorreu, e pode não ocorrer.

A página Poder360 trás resultados de pesquisa com três mil entrevistas em São Paulo e Minas Gerais, no período 9-11 de setembro, dia em que Fernando Haddad foi oficialmente anunciado candidato pelo PT à presidência da República. No Sudeste o anúncio não surpreendeu e a transfusão de votos de Lula a Haddad já começara com sua indicação a vice. De agosto a 10 de setembro, véspera da indicação, Haddad crescera de 4% a 9% das intenções de voto, segundo o Datafolha, pulo de cinco pontos percentuais. Entre 10 e 14 de setembro, já oficializado, o candidato do PT passou de 9 a 13% das intenções, salto de mais quatro pontos percentuais, ainda segundo o Datafolha. Depois de várias semanas sem ultrapassar 2% das intenções de voto, o enorme avanço de nove pontos percentuais entre agosto e setembro identifica o processo em curso de transfusão de votos de Lula para Haddad.

Foi no contexto da transfusão já em curso, e em estados nos quais o desconhecimento sobre Fernando Haddad é mínimo, que a pesquisa do Poder360 informa que, em São Paulo, Haddad aparecia com 10% de intenções contra 9% de Ciro, enquanto em Minas Gerais Ciro alcançava 14% das declarações de intenção contra 10% em Haddad. Na pesquisa Datafolha, era Ciro que aparecia com cerca de quatro pontos percentuais acima de Haddad, no Sudeste, No que estão chamando a batalha do Nordeste, região topográfica que, para a crônica paulista, inclui o Norte e o Centro-Oeste, onde o desconhecimento de Haddad pode ser maior, as próximas pesquisas contribuirão para a angústia dos tucanos. À medida que cresce a rejeição à Haddad simultaneamente à difusão de seu nome, a disputa com Ciro, na região, poderá depender do saldo simpatia versus repulsa, aspecto provavelmente de pouca relevância nas votações presidenciais anteriores do PT. Mas agora não se trata de Lula contra Serra ou Alkmin, nem está aferida a consequência eleitoral de Fernando Haddad se apresentar por aí afora como Lula.

Aí é que os conservadores, sobretudo paulistas, pisarão em ovos: Ciro, estrangeiro, ou Haddad, petista, mas, apesar de tudo, nativo. Os cenários elaborados pelos clínicos da opinião pública, traduzindo resultados da pesquisa Datafolha (14/9), me parecem afobados. Ali, o que surge como certa, hoje, é a queda de Marina Silva, mais nada, nem mesmo a consagração antecipada de Jair Bolsonaro.

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FACE A FACE COM O ELEITOR

O golpe de 2016 impediu Dilma Rousseff e expulsou as forças populares do circuito do poder. Fiz esse diagnóstico em Democracia Impedida, publicado em 2017. Desde então o tabuleiro foi sacudido e nenhuma das pedras conquistou posição invulnerável.

A fórmula conservadora sustenta que é preciso mudar alguma coisa para que tudo permaneça como está. Minha fórmula para identificar os progressistas liberais é a de que, para eles, “tudo precisa continuar como está para algo mudar”. Parece a mesma, mas na fórmula dos conservadores são eles que dizem o quê e como mudar; na dos liberais progressistas, são estes que decidem o que continuará como está. Raramente uma peça coadjuvante interfere no conchavo entre conservadores e liberais progressistas. Quando surge, é ela a peça de efetiva oposição às regras estruturais, mais do que à simples competição na margem.

Os conservadores contam com três participantes no jogo: Jair Bolsonaro, Marina Silva e Geraldo Alkmin. O destemperado Bolsonaro foi contido pela didática de Paulo Guedes e só os rudes acreditam que vá distribuir armamentos ou castrar homossexuais. O conservadorismo de Guedes é extremista de outro modo: propõe substituir o que está aí em sentido ainda mais devastador para a economia e soberania populares, mantendo a essência imutável.

Marina Silva dispõe-se a defender o status quo promovendo reformas selecionadas, desde que a preservação e as reformas incluam o critério da sustentabilidade. A arbitrariedade do critério só é inferior à da graça da intimidade com a vontade divina, monopólio dos pós-graduandos em teologia. À parte a indignação contra escandalosas iniquidades da ordem, Marina investe na permanência dela.

Geraldo Alkmin é o conservador clássico. Polido com os grupos de interesse, não hesita em tornar-se bolsonariano se a exacerbação das demandas populares lhe parecerem ameaçadoras. Basta lembrar o início do vandalismo policial em junho de 2013. Talvez seja desafiado por um Collor retardatário, João Amoedo, do Partido Novo.

O liberalismo progressista – deixar tudo como está e alterar o possível – resultou da metamorfose do Partido dos Trabalhadores ao chegar ao poder e topar com a dura oposição dos conservadores. Os defensores da ordem não seguem regras contratuais, como ocorre nos acordos coletivos de trabalho e acertos de convivência são inevitáveis. Acertos cujos termos dependem mais da força social do que dos números eleitorais.

Lula obteve mudanças nas margens do sistema, embora vitais para os beneficiados, mantendo intacta a estrutura de extração de mais valor nas indústrias e nas transações bancárias. Foi o melhor acordo fechado, suficiente para transformá-lo no mais amado governante brasileiro. Ainda assim, escapou por pouco de um golpe em 2005.

Dilma não escapou. Depois da crise internacional de 2008, e apesar de drástica redução de recursos, Dilma expandiu os programas sociais. O lance foi inaceitável pelo conservadorismo, temeroso de uma efetiva redistribuição de renda. Caiu e cairia, mesmo se mais competente na administração da crise, ao contrário das fantasias dos críticos de massa falida. Dilma caiu por romper o pacto firmado pelo hábil metalúrgico. Haddad é tentativa de reingresso na ordem, solidário à estrutura vigente, mas aliviando as populações marginais da ordem.

Onde se encontram as propostas de mudanças estruturais afetando as posições dos predadores da economia e da soberania nacionais? – Assistam aos debates.

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OS DESCAMINHOS DE UM CANDIDATO

Acabei de assistir 42 minutos de entrevista de Ciro Gomes a Glenn Grenwald em vídeo da Intercept. Assertivo nas opiniões como dever ser e polido como de costume, também como de hábito mostrou ser o único candidato de real oposição as bases estruturais da democracia capitalista brasileira. Sem limitar-se às fáceis indignações contra a miséria, a ridícula renda per capita, a situação no campo e nas periferias das cidades, clichês de todos os postulantes, referiu-se sempre que possível ao que considera a fonte principal de que as mazelas mencionadas são consequências diretas ou indiretas: a forma selvagem como o capital se apropria de mais valor nas indústrias e no cartel do sistema bancário.

Referiu-se duas vezes ao Rio Janeiro: na primeira disse que o Rio de Janeiro era o epicentro da corrupção no Brasil, tendo como evidência os ladrões, presos, Eduardo Cunha e Sergio Cabral. Ora, esses são ladrões pés de chinelo, não obstante o absurdo do que roubaram pessoalmente. O epicentro da corrupção está nas relações de longa data entre os grandes conglomerados privados e autoridades públicas em sistemática extorsão de benefícios contra os interesses da economia e até da soberania nacional. Documentadas pelas rocambolescas investigações da Lava Jato, a quase totalidade desses conglomerados estão operacionalmente sediados em São Paulo e é deles que têm saído os grandes criminosos. Políticos paulistas não estão na cadeia pela miopia da Lava Jato, como é publico e notório. Ciro Gomes errou seriamente na localização do epicentro da corrupção no Brasil.

Na segunda referência denunciou que os eleitores do Rio de Janeiro só estão interessados na descriminalização do uso das drogas. Talvez por isso sua campanha esteja negligenciando o terceiro colégio eleitoral do País. O candidato tem todo o direito de desprezar o voto fluminense. Mas me permito indagar: na companhia de quem anda Ciro Gomes quando vem ao Rio de Janeiro? E posso assegurar que ele não sabe, não é com quem, mas de quem está falando.

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NÚMEROS NÃO MENTEM

Os eleitores em busca de informações alternativas à imprensa tradicional terminam contaminados pela algazarra de blogues mistificadores. Nascidos para corrigir desvios profissionais dos jornalões, os blogueiros partidários copiam todos, aprendidos em seus tempos de William Bonner: omitem dados, deturpam acontecimentos, divulgam falsidades e, sobretudo, não deixam ninguém contrariá-los. Até os debates são forjados: a própria turma e convidados bem escolhidos promovem a farsa de estarem todos de acordo.

A corrida eleitoral é a pauta para difusão de patranhas. Os números servidos aos leitores, resultado de cálculos aberrantes sobre dados torturados, falsificam o andamento real da competição. Embora sujeita a mudanças, é possível demonstrar que a atual intenção do eleitorado difere largamente do que jornalistas profissionalmente engajados transmitem a crédulos leitores.

É quase certo que Lula não será candidato. De acordo com declarada estratégia do PT, a manutenção de seu nome tem por objetivo a transferência de seus eleitores para o sucessor, Fernando Haddad. Para tanto, o ânimo petista é ativado por números de Lula, soma de sua votação histórica e acréscimos compensando as injustiças sofridas. Mas quando se limitam àqueles que serão candidatos, os números da última pesquisa do IBOPE, em meados de agosto, revelam um quadro não tão claramente favorável a tais ambições.

As intenções de voto, computadas por estado, indicam que os três primeiros lugares são ocupados, na ordem, por Bolsonaro, Marina e Ciro. Exceções ocorrem na Bahia, Maranhão, Pernambuco, Pará, Sergipe, Amapá e Alagoas, nos quais Marina aparece à frente dos outros dois; nos estados do Ceará e Piauí, em que Ciro assume a dianteira, e no solitário Paraná, com Álvaro Dias à frente dos outros três.

O segundo grupo pertence a Geraldo Alckmin, ou vice-versa, virgem sequer de um único primeiro lugar. Pouco provável que continue assim, mas o tempo encurta, acacianamente, a cada dia, e sua plataforma de lançamento só contabiliza um segundo lugar em São Paulo e Mato Grosso, além de um empate em quarto lugar com Ciro, no Paraná. Em todas as demais unidades da federação ele monopoliza o quarto lugar.

Haddad, estrela da vez, obtém no Piauí sua melhor marca: 6% das intenções de voto. Conquista 5% na Bahia e em São Paulo, e 4% em cinco estados: Rio de Janeiro, Paraíba, Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Sul. No Distrito Federal e nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Sergipe e Santa Catarina, Haddad não ultrapassa 3% das intenções de voto, enquanto em outros nove estados recebe não mais do que 2%: Paraná, Acre, Espírito Santo, Tocantins, Goiás, Rio Grande do Norte, Amapá, Ceará e Alagoas. Roraima e Amazonas lhe concederam 1% das preferências de voto.

Nesta pesquisa o IBOPE não forneceu os resultados de Minas Gerais, mas julgo válido concluir que Geraldo Alckmin necessita de um sobre esforço para alcançar um dos dois primeiros lugares. A distância que o separa do terceiro lugar de Ciro Gomes não é excessiva em alguns estados. Ocorre não haver o que impeça Ciro Gomes alcançar o segundo lugar, hoje com Marina, pois as distâncias entre os dois também não são insuperáveis.

O desafio que defina, talvez, a Presidência, consiste em descobrir a quem pertencem, de fato, os votos prometidos a Jair Bolsonaro. E se, contra toda lógica elementar, sejam mesmo dele esses votos encapuzados, azedos, noturnos?

Por fim, fica mapeado o tamanho da transferência das intenções de votos em Lula para efetiva votação em Haddad. Se o comando petista dispõe de informações estimulando o otimismo agressivo de seus militantes, essas não aparecem nos blogues, ocupados com fantasias embriagantes.

Para mim, esses números ainda não fazem sentido e muita água está por correr. Mas não pelos canais da internet.

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CARTAS NA MESA

A euforia petista facilita demarcar divergências em relação a outras vertentes progressistas. Não é em momento de depressão ou de reduzido prestígio social do PT, mas quando dirigentes e militantes antecipam possível vitória no primeiro turno de Lula/Haddad, que faço um descarrego pessoal.

O vício de origem do processo que encarcerou o candidato Lula/Haddad não basta para cobranças de adesão a qualquer decisão emanada da direção do PT ou do próprio Lula. Esse é um preço similar às imposições de monopólio natural, supostamente implícito na condição do vitimado. Mas a injustiça não garante soberania indisputada a injustiçados. A coação é um preço aberrante, tratando-se, na verdade, de um assalto de Lula e apóstolos contra os insubmissos à jurisdição monárquica de algum predestinado. Seria a contrapartida civil dos gênios iluminados do Supremo Tribunal Federal. Rejeito a ambos.

O político Lula, vítima da notória e tácita conspirata do Judiciário, é o mesmo Lula que persegue de maneira implacável como um mouro, togado honoris causa, disposto a cobrir elevadas apostas, sacrificando quadros de seu partido, promovendo acordos clandestinos com PP e PR  para destruir oportunidades ao surgimento de outras lideranças populares.

Lula, pessoalmente, foi tenaz na urdidura do isolamento de Ciro Gomes, e mostrou-se hospitaleiro um tanto inescrupuloso a figuras e partidos que depuseram Dilma Rousseff. A versão dos fanáticos é a de que os ladrões e golpistas se arrependeram e Lula os perdoou. Mas não por generosidade dos novos centuriões. A prioridade de Lula e do PT nacional, que é o apelido do PT paulista, era e é a destruição da candidatura Ciro Gomes (ora, um cearense!). Para haver novo candidato paulista era indispensável que só houvesse rebotalho fora do PT paulista. Não é, obviamente, o caso de Ciro Gomes.

Eleitores de boa fé acreditaram que a exigência da cabeça de chapa era anseio partidário, sem qualquer explicação para a sacralidade de tal mandamento. Durante toda a embromação para a escolha do candidato “Lula”, da qual um esperto baiano ficou longe, a questão real sempre foi limitar a escolha da embuçada de Lula aos quadros do PT paulista. Fernando Haddad, claro. Lula é nordestino de nascimento e político paulista por conversão, inseminado pelo preconceito contra Getúlio Vargas, do qual nunca se desfez, e orgulhoso da predominância da indústria e dos bancos paulistas, com os quais se senta e se sente à vontade para negociar.

Há um aspecto inédito do fenômeno Lula: a capacidade de transformar homens e mulheres de reputação e história em meninos e meninas de recados, transformação aceita como promoção a estafeta: “o Lula mandou dizer…”. Aos sólidos opositores ao golpe, que não trocam a dignidade pelo poder, enrubesce testemunhar a subserviência e abdicação da autonomia de profissionais competentes, antes empenhados em formulações originais sobre o País. Pior: compactuam conscientemente com a mais intolerante máquina de intimidação e de difamação dos que se recusam ao beija-mão de chalaças; propõem e promovem censura nos blogues, outrora democráticos, e em todos os meios de comunicação, ocasionalmente infiltrados. São meganhas mentirosos, como os da ditadura militar, omitindo, desmoralizando, coagindo e, sem o saber, morrendo com Lula. Nunca mais terão direito a opinião pessoal.

Lula sabe que agoniza politicamente, aconteça tudo ou aconteça nada em outubro de 2018. E independe do Judiciário. Lula agoniza porque todos os grandes líderes terminam superados pela irreversível passagem do tempo. Talvez a revolta contra o fim inevitável se encontre na origem da obsessão instalada em sua nova concepção de mundo, expressa em obsoleto programa de governo. Lula não está à altura de Lula.

 O programa do PT é caduco e, em certos aspectos, tão reacionário quanto o do PSDB, na lengalenga de quem vai pagar mais imposto, mantido o equilíbrio fiscal, por suposto, na repetição de programas sociais altamente louváveis, mas indefesos, como se viu, sem reflexo institucional protetor. Acabar com a miséria exige bem mais do que aumentar conjunturalmente a renda dos pobres.  Os intelectuais que o acompanham, sobretudo os subservientes do jornalismo alternativo, ignoram a formidável extensão do drama do Brasil, que ingressa no circuito do ocaso da democracia representativa sem tê-la instituído integralmente, e exposto aos estertores da revolução industrial, que não completou. Profundamente desamparado diante da perspectiva de se perpetuar como copeiro das nações produtoras de tecnologia pós- revolução digital, o Brasil é um ente coagido por negociatas, ameaças, ações e omissões predatórias, a espremer-se entre um caudilho que mudou de lado e espumantes nulidades em rede.

As cartas, porém, não foram todas jogadas.

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BALANCETE

Em matéria de estratégia, a do PCdoB foi a de maior êxito. Ameaçado pela nova legislação de perder privilégios parlamentares, sem assento em comissões, mesas diretoras, fundo partidário e tempo de televisão, as eleições proporcionais são o objetivo primordial do partido. Associando-se a chapas fortes, contará com votos dos partidos das coalizões para eleger seus candidatos. A apresentação de Manuela como candidata a presidente foi audaciosa. Destinada a ser absorvida, a candidatura ficou à beira do precipício com a escolha de Katia Abreu por Ciro Gomes. Se Lula continuasse a recusá-la o PCdoB teria que enfrentar sozinho a competição presidencial, provavelmente não tendo votos para atender à exigência da lei eleitoral para a representação no parlamento. Estratégia bem traçada e bem executada.

Ciro Gomes é o único capaz de promover duas campanhas simultâneas. Katia Abreu dispõe de personalidade e capacidade de articulação que a permitem fazer campanha em um lugar enquanto Ciro circula em outra praça. Marina Silva ou Geraldo Alkmin não contam com tal recurso. No PT, já com o problema de informar a seu eleitorado que o candidato não é o Haddad, mas Lula, exceto se Lula for impugnado, Manuela não tem como se apresentar senão junto com Haddad, deixando claro que, se Lula for candidato, o vice não será o Haddad, ali presente, mas ela, que, por ora, não é nada. Um pequeno transtorno será explicar, caso perguntem, o que acontecerá com Haddad, se Lula for candidato: voltará a dar aulas no INSPER, colégio de radicais antipetistas, ou será confirmado, não como o mensageiro de Lula, mas como vice mesmo? Aí o destino incerto será da Manuela. Nada disso tem importância para o eleitor, segundo os estrategistas do PT e seus porta-vozes na imprensa alternativa, porque eleger Lula ou seu preposto é o que importa. Mais nada.

Quanto a programas, Marina Silva, não obstante assessores de peso, não abre mão de confundir o eleitor com seu estilo baixo austral de Augusto dos Anjos. As votações que tem obtido são o maior mistério do comportamento eleitoral brasileiro. Se ela afirmar que, com os erros e roubalheiras do passado recente, pior do que está não pode ficar, será considerada uma declaração socrática – tipo, eu só sei que nada sei -, embora um plágio de Tiririca, cuja votação é igualmente incompreensível. Alkmin dispensa apresentar programas porque já é conhecido há vinte anos. O cartapácio do PT rebobina programas conhecidos, acrescenta velhuscas bandeiras como um imposto sobre fortunas e ignora por completo o complexo desafio da revolução industrial ponto 4 sem fazer ideia do problema de emprego que o País terá pela frente. Refere-se à intervenção no mercado da informação, sem maiores esclarecimentos, e serve a fantasia de reforma política junto com a promessa de uma Assembleia Nacional Constituinte. Mas a segunda, se cumprida, não promoveria a primeira? Talvez não, pois, segundo os pensadores petistas, os deputados não alteram as condições que lhes proporcionaram o mandato. Bem, fora a grosseira análise de como funciona um parlamento, onde pensam buscar candidatos e eleitores distintos dos atuais? Quanto a isso o programa oferece o conhecido escapismo de que tudo será feito depois de ampla consulta à população. Bem, não importa porque o projeto real é eleger Lula ou quem ele mandar.

O programa de Ciro Gomes tenta apresentar diagnósticos específicos de vários problemas materiais e esboça linhas de ação para minorá-los. Há substância para discussões relevantes, inclusive sua tese de que o presidencialismo é a fonte de todos os males e o parlamentarismo um primor de engenharia: se não está funcionando, o grupo deixa o governo e outra eleição, ou indicação do próprio parlamento, escolhe o grupo substituto. Não haveria o problema agônico da sucessão que precisa esperar quatro, cinco ou seis anos para solucionar um vexame como o de Michel Temer, por exemplo.

Ocorre que a Alemanha dos anos 30 era parlamentarista, na companhia de Portugal salazarista e outros da mesma cepa. Ciro está equivocado quanto à história das formas políticas. Em compensação, tem revelado conhecimento e preocupação com o ingresso do Brasil na ordem robótica, com a perspectiva de se tornar um dos países cronicamente proletários no mundo da automação. Mas todas as entrevistas são desperdiçadas com debates sobre o temperamento do candidato, suas relações com o PT e Patrícia Pilar. Ou seja, a imprensa convencional também não quer saber do programa de ninguém: já tem seu candidato tanto quanto parte considerável da imprensa alternativa. Pensamento único em todos os canais de comunicação.

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